I'm Winston Wolfe. I solve problems.

quarta-feira, novembro 29, 2006

V de Vingança


    Entrada para o cinema: R$ 5 (com carteirinha de estudante)

    Combo de pipoca com refrigerante: R$ 6

    Na fila para o filme, topar com aquela ex-namorada que te sacaneou e notar que ela está tomando a forma de um barril de chopp de 50 litros: NÃO TEM PREÇO

Conjugando o verbo amar


    Os Beatles são uma fonte inesgotável de tudo o que se imagina. Qualquer coisa relacionada a John, Paul, George e Ringo faz sucesso. E dinheiro. Muito dinheiro. São a banda que mais fatura mesmo depois do fim. Agora, quando todos pensavam que não havia mais o que faturar em cima do quarteto - posto que toda e qualquer gravação possível e imaginável já foi lançada - eis que o produtor George Martin, o quinto besouro, chega com Love, disco com remixes das canções mais famosas do grupo. Mas não qualquer tipo de remixe.

    As músicas não foram simplesmente mexidas. Passaram, sim, por singela - embora decisiva - intervenção cirúrgico-artística. A idéia foi da oportunista trupe do Cirque du Solei, que resolveu ganhar uns trocados montando um musical com base na obra dos rapazes de Liverpool. Martin gostou da idéia e, com a chancela dos responsáveis pela parte dos Beatles mortos e mais os remanescentes do grupo, mexeu como lhe deu na telha nas canções. Tirou e colocou instrumentos, inseriu levadas, alterou rotações, pintou e bordou. Qualquer semelhança com aquele engodo chamado "Let it Be... Naked" não é mera coincidência. Pois é, pois é, pois é...

    Por isso, Love não é recomendado para puristas ou fundamentalistas. Dá para imaginar um beatlemaníaco, vestido com a roupa do Sgt. Pepper, enfurecido, aos berros com o disco nas mãos: "Misturaram 'Hard Days Night' com 'Get Back'! Hereges! Trocara o solo elétrico de 'While My Guitar Gently Weeps' por cordas! Vão queimar todos no fogo azul do inferno! Paul is dead!" Sejamos sensatos, pois.

    Love é um caça-níqueis. Mas é um caça-níqueis que, de repente, deve render mais do que dinheiro (até porque, nenhum dos envolvidos no projeto precisa realmente de grana, sejamos francos). A molecada nova que não conhece nada de Beatles pode, por exemplo, ouvir uma dessas versões e ter curiosidade em saber como ela era originalmente. E então gostar, ir atrás de mais e, quando menos se espera, vê-se nascer outra pessoa de bom gosto musical.

    Por isso, assim como outros lançamentos póstumos do quarteto, o disco serve, antes de mais nada, para mantê-los em evidência dentro da sociedade da informação que vivemos. Num contexto onde bandas surgem na mesma velocidade que desaparecem, os detentores do espólio dos Fab Four temem que o legado da banda mais importante de todos os tempos seja esquecido ou relegado a um passado que definitivamente não os pertence. Porque o que aqueles quatro moleques fizeram não tem precedente dentro da lógica espaço-temporal que rege nossas vidas. Estão bem acima dela, velando por tudo e todos. Amém.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Universo-umbigo


    A Bizz deste mês traz uma retranca pior do que a matéria principal, um compêndio incrivelmente inócuo sobre música digital. Nela, o jornalista-estrela Lúcio Ribeiro explica, em uma página inteira, porque é um sujeito fodaço e referência absoluta no Brasil no que toca à música independente.

    Já a Rolling Stone tem a pachorra de dedicar inexplicáveis oito páginas inteiras para que oito integrantes de oito bandas de rock nacional, que lançaram discos em 1986, falem sobre seus próprios rebentos.

    O que é a falta de pauta/anunciante, hein?

segunda-feira, novembro 20, 2006

Quente





    São duas as maiores preocupações do macho heterossexual moderno. A primeira, sexo. Segundo depoimentos de amigas próximas, a maioria sequer sabe pra quer servem aquelas dobrinhas entre as coxas e as nádegas. Ou o que fazer com um bom par de almofadas. A segunda, passar roupa. Segundo depoimentos de amigos próximos, o papo com o ferro a vapor é algo totalmente inóspito, quase como trigonometria. Sabem apenas que não devem colocar a mão na chapa quente - coisa que devem ter aprendido da pior maneira durante a infância. Compartilho, amigos.

    Quando ela disse que se ausentaria por cinco dias, entrei em desespero. Recém-saído da casa da mamãe, havia a pouco aprendido os meandros que cercam a máquina de lavar automática. Agora, precisaria me inteirar dos macetes a respeito de esticar roupas. Pedi algumas lições básicas, coisa simples, apenas para não ficar sem camiseta preta no final de semana. E lá foi.

    1. Armar a tábua de passar
    2. Colocar água no ferro
    3. Ligar o aparelho
    4. Selecionar a quantidade de vapor de acordo com o tecido que será passado
    5. Espirrar um pouco de Comfort antes de descer a chapa

    (Momento pergunta-idiota-que-mereceu-a-resposta-que-teve:
    - O que é isso? - pergunto, apontando para o recipiente azul com gatilho de spray.
    - Comfort, oras - responde ela, cara de reticências.
    - Eu sei a marca, mas do que é feito. É tipo um amaciante? - arrisco.
    - Não, é tipo um Comfort. Não faz pergunta difícil, tá? - encerra.
    Toma, besta.)

    Então me atirei com vontade à pilha de roupas limpas e amarrotadas. E fui bem, até pegar uma camisa de polyester e meter nela o ferro quente exalando vapor, perfeito para fazer o tecido enrugar e rasgar antes de qualquer movimento brusco. Tinha "matado" a camisa. Uma camisa amarela que eu nem gostava tanto, mas, ainda assim, a prova irrefutável da minha falta de preparo, da minha incompetência na decana tarefa doméstica. Deduzi rápido que o excesso de vapor fora a causa da tragédia e que eu deveria ter regulado o ferro na posição mais seca possível. O tecido pedia algo que eu não sabia. E me dei mal.

    Pronto. Junto com a camisa, eu havia matado também a charada. Da mesma forma que cada tecido exige uma regulagem específica de vapor, cada mulher também exige um tipo de postura durante o sexo. A seda requer um ferro seco, ao contrário do algodão, que gosta de umidade. Logo, não adianta ir rosnando feito um animal para uma manceba recém-descoberta, assim como não se deve exagerar no recato ante uma dama experimentada.

    Todas, entretanto, precisam ser devidamente preparadas e trabalhadas da maneira mais quente e próxima possível. Ninguém passa roupa com o ferro frio, certo? É preciso aquecer as coisas antes. O próprio ferro a vapor necessita de um tempo mínimo para ficar no ponto. Do contrário, seu rendimento será abaixo do esperado, quando não, inexistente. Quanto mais quente, melhor.

    E como qualquer boa passada de roupa, não se pode deixar qualquer dobra, vinco ou abertura sem a devida atenção. Tudo deve ser meticulosamente explorado e apreciado. Sem pressa ou preconceito. Capricho é fundamental e faz toda a diferença. Ou alguém conhece quem alisa apenas as mangas da camisa, deixando o resto amarrotado? Fazer o serviço pela metade não dá. Além de tudo, pega mal. E roupa mal passada, assim como sexo mal feito, é o tipo de coisa que não costuma ficar restrita a vizinhança. Espalha mesmo.

    Mas claro que tudo fica melhor com o tempo. Quanto mais roupa se passa, mais fácil a tarefa se torna. Mas é preciso policiamento constante para evitar uma tentadora e quase automática alienização do processo. Não se pode alisar as peças sempre da mesma forma, tratando-as indiscriminadamente. Uma camisa e uma meia podem ser feitas do mesmo tecido, mas pedem ações diferentes. Cada uma tem sua maneira particular de ser manipulada para, assim, apresentar o melhor resultado.

    E o que separa passadores bons de passadores ruins? Duas coisas: vontade e disciplina. Não se pode desistir na primeira "matada" de roupa. Nem pensar em se aposentar apenas porque alisou uma cueca. Passar roupa exige dedicação espartana, reciclagem constante, desprendimento e algum humor.

    Óbvio que exceções existem, mas a regra é essa: faça sexo como você passa roupa. Não tem com errar.

quinta-feira, novembro 16, 2006

Crime e Castigo


    Um grupo de jovens norte-americanos vem passar as férias no Brasil. Durante uma festa em alguma praia, são dopados e tem roupas, dinheiro e documentos roubados. Acordam estirados na areia e sem ter para onde ir. Desesperados, aceitam a ajuda de um nativo, que os leva para uma casa onde podem conseguir auxílio. Lá, descobrem que podem ser vítimas de terríveis contrabandistas de órgãos, doidos para abri-los e faturar algum com suas tripas. Gostou? Esse é o enredo de "Turistas", que estréia em dezembro nos EUA e em fevereiro por aqui.

    Afora a velha idéia gringa que aqui ainda é um espécie de Haiti tamanho família - vide o site oficial do filme, cheio de esteriótipos bobos típicos de norte-americano - o filme promete cenas fortes de tortura, mutilação e morte, perfeito para quem gostou de outra película semelhante, "O Albergue". É, inclusive, a ele que "Turistas" vem sendo comparado. Ambos são a evolução técnica de um tipo de horror que surgiu nos anos 80 com os filmes de maníacos homicidas imortais que carregavam, junto com suas armas afiadas, uma grande carga moralista. Você pode não acreditar, mas Jason, Freddy Krueger e Michael Meyers eram nada menos que agentes a serviço de valores morais que perduram até hoje – ou pelo menos assim querem que seja.

    A mensagem tanto das cinesséries "Sexta-Feira 13", "A Hora do Pesadelo" e "Halloween", quanto de "O Albergue" e "Turistas" é a mesma. "Se você é jovem e cheio de vida, cuidado com o que faz ou deseja. Porque se isso for contra os princípios morais reacionários e hipócritas vigentes, será punido. Sempre da pior forma possível. E não adiante fugir, porque nem nos seus pensamentos você pode fazer o que quer", parecem dizer, punhal na mão, os vilões preferidos da Cruzada das Senhoras Católicas.

    "Sexta-Feira 13", por exemplo, se passa, na maior parte do tempo, em um típico acampamento de verão. Comuns nos EUA, é para lá que a classe média burguesa larga os filhos. E lá, longe dos pais, é que a maior parte dos jovens tem (ou tinha) suas primeiras experiências com sexo e drogas. Porém, não era o que os guardiões da moral e dos bons costumes tinham em mente. Por isso, em todo episódio da série Jason matava adolescentes que estavam transando ou usando drogas. Afinal, não foi para isso que mamãe e papai te jogaram no meio do mato para poder jogar strip-pôquer em paz. Era para ficar cantando em volta de fogueiras e pegando maçãs com a boca dentro de tinas.

    No caso de "A Hora do Pesadelo" o cerco era maior e definitivo, porque Freddy Krueger atacava dentro da cabeça de suas jovens vítimas, único lugar onde a moral social não podia interferir de maneira incisiva. Logo, nem em sonho seria possível refugiar-se do longo braço da "lei"; nem em pensamento se estaria seguro para construir seu próprio mundo. As navalhas de Freddy estariam lá para garantir isso.

    E "O Albergue" e "Turistas" continuam com essa tradição de horror moralizante. No primeiro, um grupo de mochileiros sai em busca de putaria pelo Leste Europeu. Na promessa de um lugar onde a esbórnia come solta, acabam caindo nas mãos de uma organização que serve a ricos sádicos que se comprazem em torturar e matar pessoas. Em "Turistas", o trailer avisa que "Em um lugar onde tudo é permitido, tudo é possível". E eis que nossos protagonistas, depois de se espantarem com a aparente liberdade (libertinagem?) selvagem desse paraíso tropical, caem nas mãos de contrabandistas de órgãos.

    Não é preciso legenda. Onde já se viu um bando de moleques querer curtir as delícias do mundo assim, de maneira tão despudorada e escancarada, sem pagar nada por isso? Querem ser felizes enquanto nós estamos aqui, amargurados com a porcaria de mundo que construímos? O preço para tal insolência deve ser acertado em sangue e servir de exemplo para outros. Daí o clímax de todos esses filmes ser o momento em os sobreviventes encontram os corpos (ou pedaços) de seus amigos mortos. E tomados de fúria destroem, na maiorida das vezes, seu punidor. Mas apenas para ele voltar, mais forte, no próximo episódio.

sábado, novembro 11, 2006

Carinhoso


    Leitor dos melhores da minha coluna do jornal, o Bruno Stardust montou uma comunidade para este careca (moi non plus) no Orkut. Logo eu, que comemoro hoje um ano de um bem sucedido orkuticídio - por isso, ainda não vi a página, mas Deus me passou o serviço e disse que a coisa é boa. Ele, inclusive, está lá também.

    Valeu Brunão! Que Bowie esteja com você.

    A propósito, ele é mais um integrante da blogosfera (o Bruno, não o Bowie...). Dêem as boas vindas para ele lá no Ralectro. :)

quinta-feira, novembro 09, 2006

Besouros metálicos


    O que a Rita Lee, o Ozzy Osbourne e o Aerosmith têm em comum? Além de um punhado de rugas disfarçadas por muita cirurgia plástica, todos já gravaram canções dos Beatles - no caso da madrinha do rock brasileiro, versões em português de clássicos conhecidos. O que os levou a isso não importa, assim como centenas de outros que também se aproveitaram do indiscutível magnetismo que apenas uma canção dos Fab Four contém. Mas um ponto é comum: todos se deram bem. Gravar Beatles é como vender pipoca no cinema, que até quem não gosta, compra.

    A última empreitada nesse sentido que ouvi foi "Butchering The Beatles: A Headbashing Tribute", uma compilação de canções dos ingleses tocadas e cantadas por músicos de heavy metal e hard rock. E o que entrou pelos meus ouvidos me surpreendeu. Esperava, como o próprio nome do disco sugere, um destrinchamento completo de John, Paul, George e Ringo, mas que acabou ficou na promessa das guitarras distorcidas e vocais afetados. Como algo que só é possível quando se trata do grupo mais influente da história, as versões metalizadas das canções ficaram muito, mas muito aquém das originais. E em todos os sentidos, incluindo peso - isso porque estamos tratando com músicos especialistas em furar tímpanos.

    Mas como músicas gravadas por adolescentes de terninhos na década de 60 podem soar mais fortes e consistentes do que versões feitas por demônios alucinados dotados do melhor equipamento existente hoje? E não são iniciantes na arte de triturar instrumentos. São músicos com longa carreira dedicada ao metal e hard rock, como Alice Cooper, Steve Vai, Billy Idol, Yngwie Malmsteen e Billy Gibbons, para ficar nos dinossauros mais famosos. Gente que, por sinal, cresceu ouvindo os Beatles. Então como soam tão frágeis, tão... sem graça? Bobo, até. Basta ouvir, por exemplo, a segunda faixa, "Back In The USSR", com o lendário Lemmy Kilmister, vocalista do não menos lendário Motorhead. Sua voz, que costumava levantar os cabelos dos pais na década de 70, hoje é quase um suspiro rouco.

    O problema, acredito, foi a pretensão do projeto (a começar pela capa, uma raridade que segundo mestre Galvão parodia o single "Yesterday and Today", de 1966), algo como "temos que soar o mais alto e distorcido possível". Imaginar que peso seja equivalente a socar a bateria com uma marreta soa, no mínimo, ultrapassado e, porque não, até infantil. O mesmo vale para as cordas, quase arrancadas de tão repuxadas que são. O resultado, quero acreditar, não deve ter saído da forma planejada, principalmente para quem conhece o trabalho de alguns músicos envolvidos nele.

    A não ser que o objetivo tenha sido reforçar o lugar-comum onde o estilo é comumente relegado. Mas, para isso, não era preciso evocar os Beatles. Bastava fazer o que sempre fizeram.

      terça-feira, outubro 31, 2006

      Fina estampa


        A Siméia tá de roupa nova. Visual caprichadíssimo, cheia de estilo e graça a garouta. Pintem e dêem uma conferida no lance. Aprovado.

      O Clipe


        No começo dos anos 90 a MTV chegou ao Brasil. Para mim, um pré-adolescente enfiado na periferia de uma cidade do interior do Estado de São Paulo, era indiferente. Minha maior ambição era tirar um 7,0 em matemática e, assim, poder alugar um Super Nintendo e jogar Street Fighter II até os olhos lacrimejarem. Mas meu destino mudou quando uma VHS preta chegou em casa endereçada a papai. Era de titia, que na época morava nos EUA. O conteúdo, um filme qualquer que ela havia gravado para meu pai treinar seu inglês - o filme, claro, não tinha legendas.

        Mas o filme não consumia toda a fita, sobrando coisa de meia-hora que havia sido preenchida por, veja só, parte da programação da MTV norte-americana. E confesso a vocês: nunca, em todo o mundo, um único trecho de fita de vídeo foi tantas vezes rebobinado. Aqueles 30 minutos, que continham alguns clipes e propagandas de balas, veículos e as famosas (e odiadas ou amadas) vinhetas estúpidas do canal de música, abriram meu universo como um machado cortando um melão.

        Aquelas imagens grudaram no meu (in)consciente por décadas e seu receptáculo era guardado como um tesouro. Os clipes, se me lembro bem, eram de um já decadente McHammer com a balada "Have You Seen Her"; de um então cabeludo Bon Jovi com sua primeira tentativa de carreira solo em "Blaze of Glory", feita para o filme "Jovem Demais para Morrer" (Young Guns II); "Epic", a poderosa mistura de funk e metal do Faith No More; e aquele que marcaria minha forma de apreciar a música pop e, porque não, de ver as mulheres. "Cradle of Love", sucesso hoje pouco lembrado do oxigenado Billy Idol, me deu munição para muitos sonhos molhados, acreditem.

        O vídeo mostrava um nerd, beirando os 30 anos, típico yuppie dos anos 80, que recebe a inesperada visita de uma vizinha que, tendo esquecido a chave de seu apartamento, pede para esperar o namorado na casa do sujeito. Ele topa, meio constrangido. A garota então pergunta se pode colocar uma fita K-7, e é autorizada. De repente, a bateria explode e Idol entra gritando para chacoalhar o berço do amor. Ela, claro, obedece, e não ousa maneirar.

        Segue-se então um frenético e desconcertante strip-tease da girl of the next door na mesma medida que o desespero do dono do apê vai crescendo. Os quadros das paredes ganham vida com Billy cantando, fazendo caras e bocas. Quanto mais o goiabão tenta parar a música ou a performance da garota, mais as coisas vão fugindo ao seu controle. Ela arranca os lençóis da cama, deita e rola - literalmente e - na tomada mais inacreditavelmente sexy que já presenciei em um clipe, ela se apóia sob os cotovelos na cama e escorrega numa maravilhosa abertura total de pernas - tudo filmado do teto, no melhor ângulo possível.

        Na cena derradeira, depois de praticamente derrubar o apartamento do cara, ela sai engatinhando em direção a ele, que está prostrado, chorando de desespero e medo, e o beija sofregamente. Segundos depois, alguém bate na porta. É o namorado da garota, um típico zagueiro da NFL, perguntando pela fulana. Antes de qualquer resposta, ela aparece tão comportada quanto como no momento que entrou. O último take é a porta sendo fechada seguida de barulhos de meia-dúzia de trancas.

        Sei que mostrei essa fita, com especial carinho por esse clipe, para todos os meus amigos. Até a professora de inglês da escola chegou a usá-la em uma das aulas. Era incrível, mas eu não queria ser como Idol, todo fodão, com aquele típico sorriso de canto de boca, debochado. Queria era ser o mané que só mete os pés pelas mãos e acaba seduzido pela garota, usado e jogado fora. E que no final tranca a porta com medo que ela entre de novo e tire suas porcelanas do lugar ou aumente o volume do som.

        E realmente me tornei um mané. Tanto que dei a fita para a primeira garota que beijei na boca e era fã de Bon Jovi. O lance não durou um mês e ela ficou com o maior tesouro da minha pós-infância. Embora tenha me dado outro: o passaporte para minha adolescência. Aí a coisa degringolou de vez, com é sabido.

        Ei-lo aqui.

      quinta-feira, outubro 26, 2006

      Corações partilhados


        O fato é que eu e D. criamos as Noites dos Corações Partidos. Normalmente no terceiro sábado do mês, lá pelas tantas, abastecíamos o carro com latas de cerveja e alguma gasolina e nos lançávamos em um peculiar via crucis. Durante toda a noite e início da madrugada, visitávamos as casas de antigas namoradas ou paixões platônicas adolescentes, casos mal resolvidos ou que haviam se tornado doídos desafetos, para dar cabo de nossa ingrata tarefa.

        O modus operandi não previa uma abordagem direta. Chegávamos no endereço da garota, parávamos o carro em frente a casa dela e lá permanecíamos por no máximo uma hora. Então, um de nós, dependendo de quem fosse o responsável pela nossa ida até o lugar, contava histórias tristes e amargas sobre o antigo relacionamento com a dona da casa. Ou pior, sobre a tentativa de relacionamento que nunca se concretizou. Valia tudo, de discussões fúteis a broxadas, de puladas de cerca a flagrantes obscenos. Nada escapava do livro de memórias aberto a força pelas vertiginosas talagadas de cerveja noite adentro.

        A coisa ficava ainda melhor se houvesse algum sinal de que a garota hoje estivesse comprometida. Um veículo estranho estacionado na rua ou na garagem, uma risada diferente vinda do andar de cima, ou até, com sorte, vultos espremidos entre as sombras do luar. A mera hipótese, enfim, de que uma antiga paixão hoje se entregava com sofreguidão e afinco a outros braços dava ainda mais sabor à empreitada, elevando a potencia máxima a dor dos já trágicos relatos que se sucediam.

        Musica era proibida. Afinal, estávamos ali para chorar as nossas dores, e não para ouvir lamentos de um outro qualquer. Um terceiro elemento estragaria por completo a noite, tirando de nós e nossas confissões o centro das atenções.

        Após o término das histórias referentes à residência em questão – ou com o fim do tempo estabelecido – rumávamos para a próxima, alternando, evidentemente, o alvo do contador do causo. Não eram comuns as ladainhas se repetirem, mas podia acontecer e, nesse caso, o outro, mesmo sabendo disso, não interrompia. Poderia ser a mesma história para quem estava ouvido, mas não para quem estava contando. E isso era o mais importante, essa era a razão daquelas noites terríveis. Exorcizar antigos fantasmas que continuavam a assombrar nossas jovens cabeças.

        E com era difícil. Por mais de uma vez pensamos em desistir, porque o efeito muitas vezes era contrário e a dor só aumentava. Pouco importava quem havia terminado com quem ou em que circunstâncias ou quanto tempo fazia. Estar ali, praticamente na soleira dos seus quartos, respirando o mesmo ar que elas respiravam – e que talvez compartilhassem com outros agora – era de quebrar qualquer muralha. Não havia glândula lacrimal atrofiada que funcionasse naqueles momentos.

        Mas de alguma forma achávamos necessário aquilo. Tínhamos a idéia fixa de que, enquanto sentíssemos qualquer coisa por elas, não poderíamos parar. Era preciso expurgar até o último suspiro de sentimento. A busca pela indiferença absoluta deveria ser incessante. E se um dos dois a alcançasse antes do outro, este jamais o abandonaria a própria sorte. Ficaríamos juntos até que os dois estivem finalmente libertos.

        As Noites dos Corações Partidos duraram pouco menos de um ano para D. e quase dois para mim – minha tendência à instabilidade provou ser, de maneira definitiva, mais nociva do que aparentava, já que quanto mais casas tinha a visitar, mais fantasmas me restavam para encarar.
        As histórias, todas cuidadosamente gravadas e arquivadas em fitas K7, foram sumariamente destruídas ao final do processo – e novas unidades, claro, compradas.

      quarta-feira, outubro 25, 2006

      Esclarecimento

      (Deus aprovou!)

        Última prosa entre eu e minha cabeleireira.

        - Taca no zero

        - Tem certeza?

        - Tenho. Rapa careca.

        - Olha, vamos fazer o seguinte: eu vou cortando aos poucos e aí você me diz quando estiver bom, ok?

        - Não precisa, pode cortar tudo.

        - Quer que passe máquina?

        - Quero.

        - Número 3?

        - Não, pode passar zero.

        - Que tal uma 2? Fica bonito.

        - Não, querida, eu quero raspar tudo de uma vez. Não quero ficar com um único fio na cabeça.

        - Ai, mas por que? Passou na faculdade, foi isso?

        - Não. Cansei de desentupir o ralo do banheiro e de prender o cabelo na hora de, hã, você sabe. Essa porcaria me atrapalha em tudo.

        - Mas é tão bonito, pensa bem, vai...

        - Já me decide, pode cortar no zero. Raspa tudo. Sem dó.

        - Ai, meu deus. Mas é máquina zero que você quer, tem certeza?

        - Tenho, Helena, tenho. Pode cortar tudo até o talo.

        - Bom, tá bom.

      terça-feira, outubro 24, 2006

      Excursão


        Domingão é dia de eleição. E também de Tim Festival. Por isso, vou votar rapidinho de manhã pra correr pra Sampa.

        Quem vai também?

      sábado, outubro 21, 2006

      Information Society


        Quando tinha por volta de 15 anos comprei minha primeira revista de música. Era uma Showbizz, espécie de segunda encarnação da então finada Bizz. Em formato gigante, trazia Courtney Love na capa e uma camisinha encartada. Devorei a revista em poucos minutos e segui comprando outros números, inclusive a "bombástica" edição que trazia Renato Russo na capa e a revelação de um caderno com letras inéditas do falecido compositor - letras que anos mais tarde seriam gravadas pelo Capital Inicial do dono da brochura, Fê Lemos.

        Mas aí, sem mais nem menos, a publicação começou a dar sinais de cansaço. O formato diminuiu para o padrão de revista quinzenal e as grandes reportagens deram lugar a quilos de resenhas. Pouco tempo depois, a Showbizz sumiria de vez das bancas.

        Anos depois surgiram outras revistas de música no vácuo deixado pela Showbizz. A Zero e a Mosh são duas das mais significativas. Porém, tiveram vida ainda mais curta. Grana sempre foi o problema alegado. Realmente não deve ser fácil manter uma revista de música para um público que, em sua maioria, é formado por gente que vive pela Internet - o que inclui se informar através dela, tornando dispensável qualquer outro veículo. Em 2005 a Bizz voltou. Mas não dá sinais que vá durar muito, já que nem assinatura ela possui. No mínimo, estranho.

        Eu aponto, entretanto, um outro fator que tornar o terreno editorial musical tão pedregoso por aqui: a falta de opinião. Aliada ao excesso de oportunismo. É fácil ver quando uma publicação "escolhe" um lado. Ela se torna chata, enfadonha, piegas até. E faz isso por "n" motivos. Um deles é não desagradar os patrões, no caso, as gravadoras. Querem ficar ganhando disquinho de graça e, claro, ter anúncios publicados em suas páginas. Por isso, cometem o maior pecado que o jornalismo de opinião pode ter: o de não ter opinião! Porque escrever sobre música é expôr opinião, pombas! Se o sujeito é ruim, lenha nele. Se é bom, palmas para ele.

        Fora as panelinhas. O editor-chefe de uma revista monta uma redação, por execelência, com gente alinhada com seu perfil. Não há opiniões contrárias, debate de idéias ou choque de informações. Apenas reprodução de um senso-comum. E isso, com o tempo, vai desgastando a revista. O leitor percebe que o conteúdo torna-se pobre e repetitivo, que basta ver a capa da revista para saber o que vai estar escrito nela. A informação se perde no meio da babação-de-ovo exagerada, fofoquinhas e boataria, três dos expedientes mais baixos - e mais utilizados - no meio. Sem contar o egolatria...
        Parece que a única fonte de informação que foge à essa regra encontra-se na Internet. Gente que realmente sabe do riscado e não tem rabo-preso com gravadora, artista e o escambáu. E, mais importante, que tem opinião e não tem medo de destrinchá-la por aí. Agora, com a Rolling Stone brasileira, que chegou às bancas essa semana, a coisa pode mudar de figura. Na rápida olhada que dei no exemplar que levei pra casa, ela não deixa nada a dever para sua matriz. Tomara.
              UPGRADE
              Após a primeira leitura, encontro um pecado venial na RS. Uma reportagem em primeira pessoa, espécie de diário de bordo, escrita pelo baterista da banda Cansei de Ser Sexy, atualmente em turnê pelo exterior. Nela, Adriano Cintra discorre sobre suas bebedeiras e - quando se lembra - dos shows em cidades dos EUA. Um tipo de umbiguismo sem graça e totalmente dispensável, mas facilmente explicável: a Trama, gravadora do CSS, tem anúncio de página inteira na revista sobre a turnê gringa da banda. Então tá então.

            segunda-feira, outubro 09, 2006

            Carta aberta ao Chico



              Pô, Chico, mancada, hein? O que aconteceu, meu velho? Porque tu fez isso? Ainda tento encontrar alguma justificativa, uma teoria conspiratória que seja para validar esse ato suicídia, mas minha veia 'ritchicóquiana" não dá conta de tanto. É muita informação junta para ser absorvida (absolvida?) por um simples mortal como eu, admirador confesso agora praticamente transformado em viúva. É, viúva, Chico, porque é assim que eu e um caminhão trucado de gente se sente.
              O que pegou, meu chapa? Que pecado cometemos nós para, em vida, termos o desprazer de te ver dividir o púlpito com aquela aberração musical, cujo único talento deve ser o de manipular a massa ignara com a cumplicidade de uma meia dúzia de programas de auditório para inflar sua conta bancária? Se é dinheiro, por favor não seja por isso, desvio com prazer os trocados do happy hour para sua conta. É só passar o número que, tenho certeza, outros farão o mesmo e não será sacrifício algum. Porque sacrifício é ler seu nome na mesma linha onde se encontra o nome de um dos sujeitos mais desprezíveis que já segurou um microfone nos últimos, sei lá, 50 anos. Sabe, Chico, isso não se faz. Não se faz mesmo.
              E me recuso peremptoriamente a acreditar nas palavras daquele arremedo de Pato Donald dizendo que o objetivo maior é te ver ecoar nas ondas populares, onde ele reina soberano como um déspota francês do século 15 de calças apertadas e coroa desbotada pesando sobre os ombros. Como se você precisasse disso, Chico! Como se o seu talento tivesse necessidade de ser medido por um sem número de moribundos culturais que se nutre da primeira massa amorfa que escorre de seus Motorádios, elevadores e salas de espera.
              Não, Chico, você não é disso. Nunca foi. Então porque tal manobra? Onde está a lógica de tamanha insanidade? Seriam as trevas travestidas com seu manto de mal gosto e falsa pretensão que avançam impiedosas por essa terra já tão sofrida? Caralho, Chico, a gente dependia de você, um dos poucos que ainda tinha forças para segurar alta a lamparina que jogava luz contra essa escuridão. De repente, você aparece do outro lado, garganta em riste contra nós, que nada fizemos para tanto. Que apenas nos preocupamos em espalhar sua memória para onde vamos.
              É isso, Chico, é medo de ser esquecido? Medo que essa nova geração, movida a bytes & MP3s & I-Pods & conexão banda larga não dê pelota para o seu legado? Quéisso, Chico! Covardia nunca foi teu forte. Vai abundamolar-se agora, vai? O azul dos teus olhos não combinam com uma faixa amarela nas costas, pode ter certeza. A mesma certeza de que o seu fruto é tão forte e bem enraizado que não se perderá nas brumas do tempo. Ao contrário do seu novo parceiro, cuja "obra" é tão insípida, inodora e incolor que não matará sequer a sede dos próximos da fila. Já você - ah, Chico, você continuará a alimentarno-nos com o mesmo caldo substancioso e saboroso de sempre.
              Então estou aqui, Chico, como tantos outros, prostrado, mãos espalmadas contra o chão, cabeça baixa e pescoço enrijecido esperando pelo golpe final. Porque depois do que você aprontou Chico, pô, só nascendo de novo.

            sexta-feira, outubro 06, 2006

            Sociedade


            No clic, este colunista, Deus e Biajoni durante rápida trip pela ensolarada e aprazível São José dos Campos, onde prestigiaram recente congresso sobre gastronomia vegetal

            quinta-feira, outubro 05, 2006

            Momentum


              Às vezes - mas só às vezes, tipo quando coloco algum troço amargo na boca - sinto saudade do cheiro dela. Então enfio dois dedos dentro do peito e empurro meu coração um pouco mais para o fundo. Lá ela não pode me machucar. Ou, pelo menos, vai levar algum tempo.

            segunda-feira, outubro 02, 2006

            sábado, setembro 30, 2006

            Homem de poucas posses


              - Bandeira preta dos Doors amarrotada
              - Figuras de ação do Kiss e Spawn
              - Dúzias de Trip
              - Um incensário de bambu
              - Panô de Shiva
              - Lanterna
              - Par de coturnos

            quinta-feira, setembro 28, 2006

            Is this it


              Enquanto todo mundo queria ganhar um carro quando fizesse 18 anos, eu só pensava em sair da casa dos meus pais. Agora, passados alguns anos - não muitos, mas mais do que eu gostaria - mimos e pertences extraviados de uma forma geral podem ser enviados para outro endereço. Rua Porto Rico 124, apê 5, na Morada do Sol. Perifa árida e barulhenta de Americana. Junto meus livros, discos e carnês das Casas Bahia com aquela que me faz querer ser alguém melhor - ou seja, ela me obriga a passar fio-dental após todas as refeições, incluindo a cervejinha com picles após o expediente.