Domingo pede cachimbo, me ensinou mamãe quando pequeno. E mais: que o cachimbo é de ouro e, não se sabe porque cargas d´água, ele bate em touros. Os bovinos, considerados valentes e até inteligentes pois sabem que fomos nós quem fizemos os cachimbos de ouro que batem neles, revidam. Em nós. Como somos fracos, caímos em buracos. E, bem, o buraco é fundo, e aí... acabou-se o mundo. Fim.
Mas naquele domingo eu não pitaria. Minha tarde seria toda sugada pelo trabalho. Bobagem explicar porquê, coisas do jornalismo diário. Antes, porém, um convite me esperava. Velho companheiro de redação, amigo de todas as horas, bom copo e bom garfo, o calvo e santista Arthur Jorge Trevisoni queimaria carnes no quintal dos fundos. Recém casado, morando em uma chácara na campestre Nova Odessa, eram comuns os assados dominicais organizados por ele e sua excelentíssima esposa. Era só levar cerveja.
Pego minhas coisas. Meu celular toca. "Compra Coca-Cola", pede, do outro lado da linha, minha namorada. Mesmo afeita ao álcool, naquela tarde ela não beberia outra coisa que não refrigerante a base de caramelo. Um vício insuperável, diga-se de passagem. Murmuro qualquer coisa e penso onde poderia comprar o litro e meio do famoso desentupidor de pia sem desviar do caminho. Economizar combustível é uma merda. Não ter dinheiro é uma merda maior ainda.
Traçando um mapa mental, encontro um posto de combustível na saída da cidade, próximo a entrada/saída da rodovia que leva à Nova Odessa e, consequentemente, a casa de Arthur e suas carnes e cerveja. Eu trabalharia naquela tarde, portanto, entupiria minhas artérias com o máximo de substâncias etílicas que encontrasse disponíveis.
Paro no posto. Entro na loja de conveniência. Abro a geladeira e pego uma lata de Bohemia e uma garrafa de Coca-Cola. Lá fora, os frentistas trocam impressões sobre uma senhorita trajando pouco mais que meio metro de tecido. Eles gostam. Dou de ombros. Acho que estou ficando "afrescalhado", como diria a esposa do Arthur, boa pernambucana e mulé-macho-sim-sinhô que é. Relevo. Penso rápido num Monte de Vênus. Gosto. Cheiro. Textura. Sinto sangue descer para a virilha e o pênis ficar firme, mas não ereto. Tudo confere. Beleza, ainda tenho salvação.
Deposito a mercadoria no caixa, entre potes e prateleiras de guloseimas de todo tipo. Coisas para mastigar no cinema, para disfarçar mau-hálito do fim do dia e para foder com o esmalte dos dentes. Deus salve os dentistas, menos o meu, que destruiu minha boca para extrair meus dentes do siso. Legal, o Word não sabe o que é siso, então ele sublinha a palavra e dá como opções as palavras Celso, censo, cesso, cesto e cios. Deve ser porque o Word é mais evoluído que eu. Logo, não tem dente do siso. E se não tem siso, não precisa se preocupar em saber o que é, então fica grifando de vermelho toda hora que escrevo siso.
Não tenho dinheiro. Não em notas. Entrego meu cartão e digo ao mesmo tempo "débito" antes mesmo que a atendente pergunte "crédito ou débito?". Todas perguntam. Então digo antes. Não que eu as considere burras, longe disso, mas é que gosto de facilitar.
Ela passa o cartãozinho na maquininha. Passa o teclado para que eu digite a senha e libere o pagamento. De repente, ela se vira e diz, num misto de surpresa e alívio. "Você é Gustavo Brigatti?". Bingo. Tá escrito no cartão. Mas ela complementa, em seguida. Não que ela me achasse burro, mas é que ela preferiu facilitar. "E trabalha no TodoDia?". Opa. Isso não estava escrito no cartão. Uma fã, pensei. Vai pedir para que eu autografe seu seio esquerdo, querer tirar foto, enfim. Mas não. Ela pega uma caixa retangular, com aproximadamente 1cm de espessura e 20cm de altura. "Um tal de Luiz deixou isso para você. Disse que você viria buscar ao meio dia de ontem, mas você não apareceu".
Era um DVD. Um filme em DVD. "O Senhor das Armas", estrelado por Nicolas Cage. Gosto dele. Sabe ser canastrão quando preciso. E mandou bem nesse último, sobre um contrabandista de armas que renega a família para continuar enchendo a burra de dinheiro. Humano, demasiadamente humano. E preciso, claro. Gostei do filme. Mas eu não havia locado aquele. Nem emprestado para alguém.
Então senti a nuca arrepiar. As pupilas dilataram. "Nem tô sabendo", balbuciei. Ela insistiu, olhos colados nos meus. "Tem certeza? Ele veio aqui sexta-feira, deixou o filme e disse que era para entregar para você. Você não conhece nenhum Luiz?".
Porra, conheço 500 Luiz. Tios, primos, amigos, detratores, reis, marcas de cigarro, de conhaque, nomes de ruas, de avenidas, de cidades, uma infinidade de possibilidades. Pergunto como ele era. "Tinha uma barbinha", ela responde, passando os dedos gordinhos pelas maçãs do rosto. Opa, agora facilitou. TODOS os Luiz que conheço TEM BARBA. Com exceção, talvez, dos monarcas. Mas eles também não alugariam "O Senhor das Armas". Nem o deixariam para eu pegar num posto na saída de Americana ao meio-dia de um sábado.
Aquilo estava cada vez mais estranho. Ao lado da atendente, uma segunda balconista fitava o desenrolar da conversa enquanto esperava o forninho da loja de conveniência cuspir os pães de queijo que havia colocado há pelo menos 15 minutos. Estava impaciente, roendo o canto das unhas. Mania mais nojenta.
"Putz, nem sei do que se trata, sinceramente", consigo dizer, já sentindo as primeiras gotas de suor quente e úmido pingarem das axilas cobertas pela camiseta vermelha que coloquei especialmente para aquela ocasião. As pupilas ainda dilatadas, entregavam meu nervosismo. Eu estava nervoso. Eu sou nervoso. E um pouco disfluente também. Há, o Word grifa disfluente também. Ele não sabe o que é não conseguir dizer certas palavras em determinadas ocasiões. De fato, é mais evoluído que eu, que sou popularmente classificado como gago, embora não o seja de fato. Se fosse, faria análise com uma fonoaudióloga e tudo estaria resolvido. Mas o buraco é mais embaixo, caso para divã e remédio tarja preta e regressão ou hipnose.
"Olha, vou deixar meu telefone para você. Se ele aparecer aqui, pede para ele me ligar, porque eu não sei quem é o cara", coloquei. Ela assentiu, pegou uma caneta e escreveu no mesmo papel que havia escrito meu nome e o nome do jornal onde trabalho e colocado dentro plástico que reveste a caixa que guarda o DVD do filme.
"Então tá. Se ele aparecer, peço para ligar", ela responde. Aceno com a cabeça e saio. Sinto o ar quente invadir meus pulmões e expulsar o regelo do ar condicionado que respirei dentro da loja. Aquilo era muito estranho. Quase podia avistar o Forrest Whitaker apresentando minha alucinação para um bando de insones ligados no SBT. Loucura. Insensatez. Estado inevitável. Embalagem de iogurte inviolável. Fome. Miséria. Incompreensão. O Brasil é Treta campeão.
Sigo reto. Entro no carro. Ar condicionado ligado. Jimi Hendrix por R$ 19,90 nas Lojas Americanas tocando. Direção hidráulica. Vidros elétricos e insufilmados. Engate e maçanetas internas cromados. 18 prestações devidas para a BV Financeira. Churrasco e cerveja. Depois, trabalho. E o Forrest na minha cabeça. É, precisaria de muitas iscóis.
Aperto FF. É tarde da noite. Perto de 22h. O celular toca. Vou atender fora da redação. É Karen, a Senhora Biajoni. Junto com o Mestre, estavam curtindo uma sauna em Penedo, verdadeiro paraíso cravado entre a triste vila militar de Resende e nosso Haiti particular, o Rio de Janeiro. Àquela hora, já estavam acomodados novamente no maior bairro de Americana, Santa Bárbara d´Oeste, onde vivem atualmente enquanto aguardam o término da reforma na Maison Biaggioni.
"Então, o Bia deixou um filme para você no posto. Ele falou com você?", diz ela. Luiz. Luiz com barbinha. Luiz com barbinha que deixou DVD para eu devolver. Luiz com barbinha FORGADO que deixou um DVD para eu devolver. Luiz Biajoni.
Fim do mistério. Caso encerrado. Minha vida volta às cores de sempre. Forrest se afasta. Os créditos sobem.
I'm Winston Wolfe. I solve problems.
segunda-feira, março 20, 2006
segunda-feira, março 13, 2006
Decisão
De posse de uma Magnum 44 - igual ao do Tom Seleck no seriado de mesmo nome - carregada com apenas um projétil para cada opção, em quem você atiraria?
1. Beto Jamaica ou Cumpadi Washington?
2. Roberto Shinyashiki ou Lair Ribeiro?
3. Paulo Coelho ou Zibia Gasparetto?
4. Bel (Chiclete com Banana) ou Durval Lelys (Asa de Águia)?
5. Frank Aguiar (o Cãozinho dos Teclados) ou Chimbinha (Banda Calypso)?
6. Pitty ou Wanessa Camargo?
7. Pica Pau ou Picolino?
8. Jaspion ou Jiraya?
9. Um camelo ou um dromedário?
10. DJ Malboro ou DJ Mau Mau?
11. Roberto Avallone ou Milton Neves?
12. Xuxa ou... hã.... Maria da Graça Meneghel?
13. Edir Macedo ou R.R. Soares?
14. O Papa ou o Pop?
14. Biajoni ou Galvão?
E então?
1. Beto Jamaica ou Cumpadi Washington?
2. Roberto Shinyashiki ou Lair Ribeiro?
3. Paulo Coelho ou Zibia Gasparetto?
4. Bel (Chiclete com Banana) ou Durval Lelys (Asa de Águia)?
5. Frank Aguiar (o Cãozinho dos Teclados) ou Chimbinha (Banda Calypso)?
6. Pitty ou Wanessa Camargo?
7. Pica Pau ou Picolino?
8. Jaspion ou Jiraya?
9. Um camelo ou um dromedário?
10. DJ Malboro ou DJ Mau Mau?
11. Roberto Avallone ou Milton Neves?
12. Xuxa ou... hã.... Maria da Graça Meneghel?
13. Edir Macedo ou R.R. Soares?
14. O Papa ou o Pop?
14. Biajoni ou Galvão?
E então?
quarta-feira, março 08, 2006
Selvagem?
Enquanto escrevo essas mal traçadas linhas, uma notícia chega pela Internet e me pega de surpresa: esgotaram-se os ingressos com desconto para o show do Jamiroquai. Como sofro de dislexia, leio novamente para ter certeza daquilo que está escrito na tela crepitante do meu computador e chego a uma conclusão. Contando com o milhão e meio de pessoas que pelo menos ouviram os Rolling Stones, os quase 200 mil que assistiram ao U2 e Franz Ferdinand, e os 15 mil ingressos para a apresentação do Oásis esgotados a sete dias do show, só posso crer que esse povo não gosta de música. Gosta mesmo é de pagar pau pra gringo.
Exatamente. Deixamos de ser um povo carente por atrações de qualidade para nos tornarmos pura e simplesmente tietes enlouquecidas por qualquer porcaria que venha de fora. De repente, parece que basta soar a notícia de que um artista que não cante em português virá para o Brasil que uma onda de histerismo toma conta da mídia e da população com menos de 40 anos. De repente, todo mundo vira crítico de música, entendido de cultura pop e sabe na ponta da língua a discografia completa do sujeito.
Isso é triste, porque dá a medida do tamanho da nossa ignorância e necessidade de atenção. Não basta apenas ouvir um disco e discutir a música de determinada banda. É preciso viajar centenas de quilômetros, pagar metade de um salário mínimo por um ingresso, dormir na porta do estádio e ter uma síncope na hora da balada romântica. Exagero. Bestice.
Tomo o Jamiroquai como exemplo. Quem se importa com o decano grupo de Jay Kay ainda? O máximo que banda conseguiu até hoje foi um hit, "Space Cowboy", do disco homônimo lançado em 1995, que vendeu horrores. Depois disso, foi laureado pelo Grammy várias vezes, mas nenhuma suficiente para trazer o grupo de maneira concisa de volta às paradas de sucesso. Então, o que explica essa corrida desenfreada por ingresso? Se pegarmos o último disco deles, “Dynamite”, de 2005, dá menos vontade ainda de gastar dinheiro para ver o show. Não passa de releitura de tudo o que já fizeram, mais do mesmo, tertúlias flácidas para ninar bovinos.
Então o que leva uma multidão a gastar até R$ 130 pelo espetáculo em São Paulo no dia 24 deste mês? Pura e simples necessidade de atenção. Não estão realmente interessados na música que o Jamiroquai está fazendo, mas sim em terem um artista pomposo respirando o mesmo ar que eles, que viajou de longe apenas para se apresentar ali, a poucos metros do alcance dos dedos.
O mesmo pode ser dito do Santana, que pela enésima fez repete sua fórmula de duetos com estrelas pop fugazes e tão carismáticas quanto uma lagartixa. O velho mexicano, que deixou a ripongada de Woodstock de quatro ao tocar "Soul Sacrifice", hoje faz solinhos para gente do calibre de Michele Branch, Chad Krueger (Nickelback), Rob Thomas (ex-Matchbox 20) e Alex Band (The Calling) cantarem. Chega a ser sofrível. De dar pena. Mas ele vai lotar os shows que fizer por aqui este mês, ah, isso pode ter certeza.
E em todos esses, o que mais vai ter serão VIPs. Essa praga que se disseminou como mato e não perde a chance de parecer "descolada", "antenda" e outros adjetivos inventados por colunistas sociais e demais pseudojornalistas. Enfim, a escória.
Mas é bobagem. Eles não ligam pra gente, como diria o Rei do Pop, esse sim, digno de arrastar multidões. Não mais, é verdade, embora ainda dê um caldo se quiser.
Exatamente. Deixamos de ser um povo carente por atrações de qualidade para nos tornarmos pura e simplesmente tietes enlouquecidas por qualquer porcaria que venha de fora. De repente, parece que basta soar a notícia de que um artista que não cante em português virá para o Brasil que uma onda de histerismo toma conta da mídia e da população com menos de 40 anos. De repente, todo mundo vira crítico de música, entendido de cultura pop e sabe na ponta da língua a discografia completa do sujeito.
Isso é triste, porque dá a medida do tamanho da nossa ignorância e necessidade de atenção. Não basta apenas ouvir um disco e discutir a música de determinada banda. É preciso viajar centenas de quilômetros, pagar metade de um salário mínimo por um ingresso, dormir na porta do estádio e ter uma síncope na hora da balada romântica. Exagero. Bestice.
Tomo o Jamiroquai como exemplo. Quem se importa com o decano grupo de Jay Kay ainda? O máximo que banda conseguiu até hoje foi um hit, "Space Cowboy", do disco homônimo lançado em 1995, que vendeu horrores. Depois disso, foi laureado pelo Grammy várias vezes, mas nenhuma suficiente para trazer o grupo de maneira concisa de volta às paradas de sucesso. Então, o que explica essa corrida desenfreada por ingresso? Se pegarmos o último disco deles, “Dynamite”, de 2005, dá menos vontade ainda de gastar dinheiro para ver o show. Não passa de releitura de tudo o que já fizeram, mais do mesmo, tertúlias flácidas para ninar bovinos.
Então o que leva uma multidão a gastar até R$ 130 pelo espetáculo em São Paulo no dia 24 deste mês? Pura e simples necessidade de atenção. Não estão realmente interessados na música que o Jamiroquai está fazendo, mas sim em terem um artista pomposo respirando o mesmo ar que eles, que viajou de longe apenas para se apresentar ali, a poucos metros do alcance dos dedos.
O mesmo pode ser dito do Santana, que pela enésima fez repete sua fórmula de duetos com estrelas pop fugazes e tão carismáticas quanto uma lagartixa. O velho mexicano, que deixou a ripongada de Woodstock de quatro ao tocar "Soul Sacrifice", hoje faz solinhos para gente do calibre de Michele Branch, Chad Krueger (Nickelback), Rob Thomas (ex-Matchbox 20) e Alex Band (The Calling) cantarem. Chega a ser sofrível. De dar pena. Mas ele vai lotar os shows que fizer por aqui este mês, ah, isso pode ter certeza.
E em todos esses, o que mais vai ter serão VIPs. Essa praga que se disseminou como mato e não perde a chance de parecer "descolada", "antenda" e outros adjetivos inventados por colunistas sociais e demais pseudojornalistas. Enfim, a escória.
Mas é bobagem. Eles não ligam pra gente, como diria o Rei do Pop, esse sim, digno de arrastar multidões. Não mais, é verdade, embora ainda dê um caldo se quiser.
Eu não vi os Rolling Stones – ou uma epopéia caipira na terra dos biscoitos Globo (parte 1)
Meados de 2005 - uma tarde qualquer na redação. Meus olhos piscam. Penso serem as lentes de contato castigando os olhos. Esfrego. A sensação não passa. Lembro do porre da noite anterior e a cabeça dói. Abro a agenda na letra D. Disco o único número que se encontra lá.
- Denão?
- Fala, gaguinho...
- Os Stones vão fazer show no Brasil ano que vem.
- Ô lôco... Nem brinca, cara...
- Sério. Tô lendo aqui, agora, uma matéria que caiu na rede.
- Putz, senti uma pontada no coração agora... ai... depois eu te ligo...
Madrugada de 18 de fevereiro de 2006 - concentração em frente ao No Canto, em Nova Odessa. Apreensão.
- Cadê o microônibus? - indaga Núria, mãos dadas com o então namorado.
- Sei lá - respondo. Do outro lado da rua, Denis engole uma cápsula de Valium para controlar a tremedeira. Ao meu lado, Dringola entorna a terceira caipirinha da noite.
- Caralho, cara, esse busão ta demorando. Não vai sair no horário, eu sabia, puta merda, eu sabia - resmunga o rotundo diagramador.
- É, acho melhor darmos o fora. Será o Mineiro ta aberto? Queria um X-Tudão Com Tudo - sugiro.
- Vão a merda os dois, ok? A merda, a merda - vocifera Denis, devidamente alterado, chacoalhando o tubo de comprimidos numa mão e uma garrafa de Petra na outra. Ele é fino, só toma cerveja preta. E esquisito, porque espera esquentar. "É um costume andino", costuma justificar.
- Olha o busão - aponto, indicando para um microônibus Clewis que acaba de aportar na apreensiva esquina da praça onde se encontra a pequena multidão de corajosos interioranos que desprenderam algumas dúzias de cobres para custear a viagem. E sobrou pouco, pelo que dava para perceber pela enorme quantidade de cerveja caseira preparada por uns e os sanduíches de mortadela e apresuntado devidamente armazenados por outros tantos.
- Hora de partir - penso, fazendo um discreto sinal da cruz invertido. "Se vou ver o filho do demo, é melhor começar a pagar pau desde já", raciocino.
No ônibus, todo tipo de hálito e secreção se mistura. São caipiras, gente simples - porém aguerrida e honesta, "antes de tudo, uns fortes", diria Euclides da Cunha - que ainda reluta em se entregar à ética primeiromundista da assepsia social.
- Eu trouxe um leitão. Ele quer ver o mar - aponta um dos presentes, exibindo uma peça completa de pernil defumado. Mais veloz que uma bala, numa fração de segundo, Denis dispara, a boca arroxeada pelos medicamentos.
- Gaguinho, tamo fudido. A gente vai morre, vai morre, eu sei. Ontem, minha mãe leu no fundo da panela de carne moída que a gente ia morre.
Isso era fato. A mãe de Denis, dona Rúpia, era conhecida e requisitada gastrotérica da cidade. Era capaz de adivinhar quanto o sujeito carregava no bolso contado a quantidade caroços de azeitona separados para uma Ceasar Salad. Tentei contemporizar.
- Nada, filhão, relaxa. Toma, bebe um pouco desse daikiri de curaçao.
- Brigado, véio. Deus lhe pague - retornou Denis, entornando um estranho copo quadrado plástico. Em seguida, virou para o lado, a mão por dentro da calça, segurando o pênis. "Tradição andina", dizia. Ok, não me meto em assuntos abaixo da linha da cintura dos meus amigos.
Logo atrás, Núria balbucia.
- Ta chegando?
- Na Anhanguera? - respondo, em tom sarcástico.
- Vai se f****, filho da p***. Vai come a b******* da sua tia, vai - dispara, feito metralhadora. "Ela ta assistindo muito o filme do bateman. Preciso pedir para a mãe dela ficar de olho", penso, enquanto amarro uma tripa-de-mico no antebraço. Na outra mão, uma seringa hipodérmica cheia de groselha. "Delícia", meus olhos dizem.
Tomar um pico de groselha é como mergulhar numa piscina cheia de música com rotação alterada de um disco qualquer do Atari Teenage Riot. Traduzindo: é merda na certa. "Parado você havia com isso, Babaganuche-san", ecoava em minha mente a voz do dublador do Pat Morita em Karate Kid. Sim, estava limpo, vez ou outra sorvendo pelas ventas um pouco de Haggen-Das sabor limão. Mas era só quando precisava buscar o holerite no RH. A groselha entrava agora pelos meus pulmões, me fazendo soltar lufadas de ar colorido pelas narinas. Ao meu lado, uma estranha planta de aspecto rosáceo regurgitava borbulhas de cor ocre e cheiro acre. Ou seria o contrário? "Sempre me confundo nessa parte...", busquei ao longe.
De repente, um solavanco. Sinto o coração batendo entre as pernas. Mas nada mais é que uma enorme boca fazendo movimentos de sucção na minha pélvis. "Lick up, lick up, I wanna lick up", dizia alguém ao fundo, enquanto aquela boca enorme, com uma língua maior ainda, fazia algo que nenhum ser vivo no mundo seria capaz de igualar. "Andy Warhol, claro", pensei, as forças já ao longe.
- Parada para o xixi. Quinze minutinhos, hein? - avisa a coordenadora do ônibus, do alto de seus 2,10m de altura, colant azul turquesa e saltos plataforma de treliça almiscarada. "Do sítio", penso comigo mesmo, já livre do transe da groselha, que agora coagulava no meu intestino grosso. Dringola cola em mim e sussura, entre assustado e estranhamente excitado.
- Cara, onde a gente tá?
- Como vou saber, bicho? Manda o Denis ligar para a mãe dele e perguntar.
- Boa.
Olho ao meu redor e não reconheço nada. Mas faço uma idéia. Árvores de açúcar cristalizado de onde pendiam maçãs carameladas, cercadas por grama de jujubas de cores sortidas regadas por riachos de chocolate mentolado. O chocolate mentolado, não sei porque, me fez lembrar de Sidney Sheldon. "Velho de merda", rebato, em pensamento. Sinto algo puxando a barra do meu jeans. É um cachorro feito de goma de mascar. Ao morder, deixa pedaços de seus dentes de Mentex na calça. "Caraleo", digo a mim mesmo, sem notar que, a essa altura, o ônibus já estava de partida.
- Vem logo, ô pagliaço! - grita Dringola. Com tamanha delicadeza, não posso recusar. Penso nas árvores doces. "Maldito seja Tim Burton. Fui envenenado", digo algo, creditando minha alucinação ao cineasta amigo do Johnny Depp que adora usar óculos escuros e não gosta de pentear o cabelo.
O expresso parte e eu acendo um charuto de acerola.
- Alguém aí aceita? - oferece, educado. Núria se atira com sofreguidão ao cilindro antes mesmo de eu terminar a frase. "Dá aqui", pede, cortez, a rádio-escuta. E lá se foi meu único enrolado, não me dando outra opção que não tentar. Ou pelo menos tentar, se não fosse o maldito banco feito de marshmellow que me engolia e atraia formigas gigantes, daquelas que estreavam filmes no Cinema em Casa do SBT.
Mas o ônibus retomou sua rota. Eu me servi de um pouco do doce do assento e adormeci. Adormeci para acordar e encontrar algo muito pior que baunilha com gosto de Mash.
- Denão?
- Fala, gaguinho...
- Os Stones vão fazer show no Brasil ano que vem.
- Ô lôco... Nem brinca, cara...
- Sério. Tô lendo aqui, agora, uma matéria que caiu na rede.
- Putz, senti uma pontada no coração agora... ai... depois eu te ligo...
Madrugada de 18 de fevereiro de 2006 - concentração em frente ao No Canto, em Nova Odessa. Apreensão.
- Cadê o microônibus? - indaga Núria, mãos dadas com o então namorado.
- Sei lá - respondo. Do outro lado da rua, Denis engole uma cápsula de Valium para controlar a tremedeira. Ao meu lado, Dringola entorna a terceira caipirinha da noite.
- Caralho, cara, esse busão ta demorando. Não vai sair no horário, eu sabia, puta merda, eu sabia - resmunga o rotundo diagramador.
- É, acho melhor darmos o fora. Será o Mineiro ta aberto? Queria um X-Tudão Com Tudo - sugiro.
- Vão a merda os dois, ok? A merda, a merda - vocifera Denis, devidamente alterado, chacoalhando o tubo de comprimidos numa mão e uma garrafa de Petra na outra. Ele é fino, só toma cerveja preta. E esquisito, porque espera esquentar. "É um costume andino", costuma justificar.
- Olha o busão - aponto, indicando para um microônibus Clewis que acaba de aportar na apreensiva esquina da praça onde se encontra a pequena multidão de corajosos interioranos que desprenderam algumas dúzias de cobres para custear a viagem. E sobrou pouco, pelo que dava para perceber pela enorme quantidade de cerveja caseira preparada por uns e os sanduíches de mortadela e apresuntado devidamente armazenados por outros tantos.
- Hora de partir - penso, fazendo um discreto sinal da cruz invertido. "Se vou ver o filho do demo, é melhor começar a pagar pau desde já", raciocino.
No ônibus, todo tipo de hálito e secreção se mistura. São caipiras, gente simples - porém aguerrida e honesta, "antes de tudo, uns fortes", diria Euclides da Cunha - que ainda reluta em se entregar à ética primeiromundista da assepsia social.
- Eu trouxe um leitão. Ele quer ver o mar - aponta um dos presentes, exibindo uma peça completa de pernil defumado. Mais veloz que uma bala, numa fração de segundo, Denis dispara, a boca arroxeada pelos medicamentos.
- Gaguinho, tamo fudido. A gente vai morre, vai morre, eu sei. Ontem, minha mãe leu no fundo da panela de carne moída que a gente ia morre.
Isso era fato. A mãe de Denis, dona Rúpia, era conhecida e requisitada gastrotérica da cidade. Era capaz de adivinhar quanto o sujeito carregava no bolso contado a quantidade caroços de azeitona separados para uma Ceasar Salad. Tentei contemporizar.
- Nada, filhão, relaxa. Toma, bebe um pouco desse daikiri de curaçao.
- Brigado, véio. Deus lhe pague - retornou Denis, entornando um estranho copo quadrado plástico. Em seguida, virou para o lado, a mão por dentro da calça, segurando o pênis. "Tradição andina", dizia. Ok, não me meto em assuntos abaixo da linha da cintura dos meus amigos.
Logo atrás, Núria balbucia.
- Ta chegando?
- Na Anhanguera? - respondo, em tom sarcástico.
- Vai se f****, filho da p***. Vai come a b******* da sua tia, vai - dispara, feito metralhadora. "Ela ta assistindo muito o filme do bateman. Preciso pedir para a mãe dela ficar de olho", penso, enquanto amarro uma tripa-de-mico no antebraço. Na outra mão, uma seringa hipodérmica cheia de groselha. "Delícia", meus olhos dizem.
Tomar um pico de groselha é como mergulhar numa piscina cheia de música com rotação alterada de um disco qualquer do Atari Teenage Riot. Traduzindo: é merda na certa. "Parado você havia com isso, Babaganuche-san", ecoava em minha mente a voz do dublador do Pat Morita em Karate Kid. Sim, estava limpo, vez ou outra sorvendo pelas ventas um pouco de Haggen-Das sabor limão. Mas era só quando precisava buscar o holerite no RH. A groselha entrava agora pelos meus pulmões, me fazendo soltar lufadas de ar colorido pelas narinas. Ao meu lado, uma estranha planta de aspecto rosáceo regurgitava borbulhas de cor ocre e cheiro acre. Ou seria o contrário? "Sempre me confundo nessa parte...", busquei ao longe.
De repente, um solavanco. Sinto o coração batendo entre as pernas. Mas nada mais é que uma enorme boca fazendo movimentos de sucção na minha pélvis. "Lick up, lick up, I wanna lick up", dizia alguém ao fundo, enquanto aquela boca enorme, com uma língua maior ainda, fazia algo que nenhum ser vivo no mundo seria capaz de igualar. "Andy Warhol, claro", pensei, as forças já ao longe.
- Parada para o xixi. Quinze minutinhos, hein? - avisa a coordenadora do ônibus, do alto de seus 2,10m de altura, colant azul turquesa e saltos plataforma de treliça almiscarada. "Do sítio", penso comigo mesmo, já livre do transe da groselha, que agora coagulava no meu intestino grosso. Dringola cola em mim e sussura, entre assustado e estranhamente excitado.
- Cara, onde a gente tá?
- Como vou saber, bicho? Manda o Denis ligar para a mãe dele e perguntar.
- Boa.
Olho ao meu redor e não reconheço nada. Mas faço uma idéia. Árvores de açúcar cristalizado de onde pendiam maçãs carameladas, cercadas por grama de jujubas de cores sortidas regadas por riachos de chocolate mentolado. O chocolate mentolado, não sei porque, me fez lembrar de Sidney Sheldon. "Velho de merda", rebato, em pensamento. Sinto algo puxando a barra do meu jeans. É um cachorro feito de goma de mascar. Ao morder, deixa pedaços de seus dentes de Mentex na calça. "Caraleo", digo a mim mesmo, sem notar que, a essa altura, o ônibus já estava de partida.
- Vem logo, ô pagliaço! - grita Dringola. Com tamanha delicadeza, não posso recusar. Penso nas árvores doces. "Maldito seja Tim Burton. Fui envenenado", digo algo, creditando minha alucinação ao cineasta amigo do Johnny Depp que adora usar óculos escuros e não gosta de pentear o cabelo.
O expresso parte e eu acendo um charuto de acerola.
- Alguém aí aceita? - oferece, educado. Núria se atira com sofreguidão ao cilindro antes mesmo de eu terminar a frase. "Dá aqui", pede, cortez, a rádio-escuta. E lá se foi meu único enrolado, não me dando outra opção que não tentar. Ou pelo menos tentar, se não fosse o maldito banco feito de marshmellow que me engolia e atraia formigas gigantes, daquelas que estreavam filmes no Cinema em Casa do SBT.
Mas o ônibus retomou sua rota. Eu me servi de um pouco do doce do assento e adormeci. Adormeci para acordar e encontrar algo muito pior que baunilha com gosto de Mash.
domingo, março 05, 2006
Healter Skelter
De vez em quando (mas só de vez em quando), o cinema consegue transportar astros da música para as telonas de maneira original, criativa e bem humorada. Nem é preciso dizer que isso só acontece quando se deixa de fora cantoras capazes de trincar taças com um único grito ou rappers que, de duas palavras, uma e meia é "modafoca". Ainda sem previsão de lançamento para o Brasil, "Live Freaky! Die Freaky!" consegue juntar a galera do punk rock da geração 90 para recontar a história da Família Manson. E o melhor: utilizando marionetes!
A história, segundo consta do site do filme (www.livefreakydiefreaky.com), começa no ano de 3069, quando, após o derretimento das calotas polares, um nômade encontra um livro que o remete ao ano de 1969 e conta o massacre que Charlie Manson organizou contra a casa do cineasta Roman Polanski e que culminou na morte de sua esposa, Sharon Tate, grávida na ocasião do crime. Claro que os nomes verdadeiros dos envolvidos foram parodiados e o absurdo toma conta de cada cena. A matança promovida pela Família chega a ter mais sangue que "A Paixão de Cristo" do Mel Gibson, por exemplo. No site, dá para baixar o trailer e clips especiais para ter um gostinho da coisa.
A produção ficou a cargo de ninguém menos que Tim Armstrong, vocalista e guitarrista do seminal Rancid, que compôs a trilha sonora com a ajuda do malucaço Roddy Bottom, ex-tecladista e fundador do extinto Faith No More. No elenco, figurinhas carimbadas da cena punkrock/ska norte-americana, como Billie Joe, Tre Cool e Mike Dirnt (Greend Day), Theo Kogan (Lunachicks), Rob Aston e Travis Barker (The Transplants), Kim Chi (The Destillers), John Doe (X), Lars Frederiksen e Matt Freeman, (Rancid), Benji e Joel Madden (Good Charlotte), entre outros. Para completar, integra a equipe, como membro da Família Manson, ninguém menos que Asia Argento, a übber-deusa underground filha do cultuado diretor Dario Argento.
E precisa de mais? Claro que precisa. A trilha sonora traz o melhor do ska-punk-rock. A faixa "Live Freaky! Die Freaky! (You Blood Will Set You Free)" está disponível inteira para download no site oficial. Além dela, Billie Joe resolveu disponiblizar a música "Mechanical Man", que ele compôs especialmente para obra, no site de seu projeto paralelo, o The Network Band. Ta lá no www.thenetworkband.com/mechanicalman.wma.
Para quem gostou de "Team America" e seu bonequinhos desbocados, não pode ter pedida melhor.
A história, segundo consta do site do filme (www.livefreakydiefreaky.com), começa no ano de 3069, quando, após o derretimento das calotas polares, um nômade encontra um livro que o remete ao ano de 1969 e conta o massacre que Charlie Manson organizou contra a casa do cineasta Roman Polanski e que culminou na morte de sua esposa, Sharon Tate, grávida na ocasião do crime. Claro que os nomes verdadeiros dos envolvidos foram parodiados e o absurdo toma conta de cada cena. A matança promovida pela Família chega a ter mais sangue que "A Paixão de Cristo" do Mel Gibson, por exemplo. No site, dá para baixar o trailer e clips especiais para ter um gostinho da coisa.
A produção ficou a cargo de ninguém menos que Tim Armstrong, vocalista e guitarrista do seminal Rancid, que compôs a trilha sonora com a ajuda do malucaço Roddy Bottom, ex-tecladista e fundador do extinto Faith No More. No elenco, figurinhas carimbadas da cena punkrock/ska norte-americana, como Billie Joe, Tre Cool e Mike Dirnt (Greend Day), Theo Kogan (Lunachicks), Rob Aston e Travis Barker (The Transplants), Kim Chi (The Destillers), John Doe (X), Lars Frederiksen e Matt Freeman, (Rancid), Benji e Joel Madden (Good Charlotte), entre outros. Para completar, integra a equipe, como membro da Família Manson, ninguém menos que Asia Argento, a übber-deusa underground filha do cultuado diretor Dario Argento.
E precisa de mais? Claro que precisa. A trilha sonora traz o melhor do ska-punk-rock. A faixa "Live Freaky! Die Freaky! (You Blood Will Set You Free)" está disponível inteira para download no site oficial. Além dela, Billie Joe resolveu disponiblizar a música "Mechanical Man", que ele compôs especialmente para obra, no site de seu projeto paralelo, o The Network Band. Ta lá no www.thenetworkband.com/mechanicalman.wma.
Para quem gostou de "Team America" e seu bonequinhos desbocados, não pode ter pedida melhor.
terça-feira, fevereiro 28, 2006
Músicas de quem gosta de liberar o brioco
1 - 53rd & 3rd - Ramones
2 - Cocksucker Blues - Rolling Stones
Ô turminha que gosta de soltar o lhôrdo...
3 - Lament - The Doors (by Nunu)
4 - Cock-suckers Ball - Frank Zappa (by Nunu)
5 - Evil Dildo - Placebo (by Nunu)
Alguém conhece mais alguma?
2 - Cocksucker Blues - Rolling Stones
Ô turminha que gosta de soltar o lhôrdo...
3 - Lament - The Doors (by Nunu)
4 - Cock-suckers Ball - Frank Zappa (by Nunu)
5 - Evil Dildo - Placebo (by Nunu)
Alguém conhece mais alguma?
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
Capote

"Capote" é um filme chato.
Não. Não venha me dizer que é legal. Legal é "Guerra nas Estrelas", "Senhor dos Anéis" e "Porky´s". Um filme como "Capote" não pode ser considerado legal. Ele é lento, sua narrativa é arrastada, o clima é tedioso e antes da metade dele é bem capaz que você, assim como o próprio Capote, comece a torcer para que a tortura temine logo e te libere para comer um BigMac.
Acredito, porém, que não tenha jeito de ser diferente. Um filme que fala sobre a produção de um obra tão aclamada e adorada quanto "A Sangue Frio", invariavelmente pisa em ovos. O sujeito cerca-se de tantos cuidados que é inevitável ousar o mínimo possível e fazer um filme para uma audiência bem específica. De preferência, uma que não durma no cinema.
O único mérito de "Capote", como a crítica fez questão de salientar, é o ator Philip Seymour Hoffman . Ele carrega o filme nas costas incorporando o personagem com uma força que eu só havia visto antes no Jim Morrison de Val Kilmer em "Doors". A estatueta, previsivelmente, é dele. O que não justifica o par de horas a que o diretor Bennett Miller submete o espectador.
Claro que as faculdades de jornalismo vão organizar excursões para que os estudantes - que em sua imensa maioria serão modorrentos e incompetentes assessores de imprensa de órgãos públicos - assistam ao filme após lerem o livro. O que será um engano, pois o Capote da tela é milhões de vezes menos interessante que o Capote do livro, mesmo que eu não tenha folheado o dito cujo.
Sua fama o precede, e isso parece bastar. "A Sangue Frio" é um caso típico de obra que quase todo mundo conhece, poucos leram e apenas uma minoria absorveu aquilo que Truman escreveu. Levado às telas, a história da confecção do livro perdeu força e naufragou num mar de tédio. Como diria o Agente Smith: "Inevitável".
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Estupefacientes auditivos
Músicas legais que falam sobre drogas
1 - Heroin - Velvet Underground
2 - Cold Turkey - John Lennon
3 - Sister Morphine - Rolling Stones
4 - Under the Bridge - Red Hot Chili Peppers
5 - Mr. Tambourine Man - Bob Dylan
6 - Cocaine - Eric Clapton
7 - House Of The Rising Sun - The Animals
8 - Purple Haze - Jimi Hendrix
9 - Carbona Not Glue - Ramones
10 - Special K - Placebo
E a lista cresce...
11 - Got to Get You Into My Life - Beatles (by Galvão)
12 - Lithium - Nirvana (by Nunu)
13 - Mr. Brownstone - Guns´n´Roses (by Nunu)
14 - Hurt - Johnny Cash (by Dringola)
Mais alguma?
1 - Heroin - Velvet Underground
2 - Cold Turkey - John Lennon
3 - Sister Morphine - Rolling Stones
4 - Under the Bridge - Red Hot Chili Peppers
5 - Mr. Tambourine Man - Bob Dylan
6 - Cocaine - Eric Clapton
7 - House Of The Rising Sun - The Animals
8 - Purple Haze - Jimi Hendrix
9 - Carbona Not Glue - Ramones
10 - Special K - Placebo
E a lista cresce...
11 - Got to Get You Into My Life - Beatles (by Galvão)
12 - Lithium - Nirvana (by Nunu)
13 - Mr. Brownstone - Guns´n´Roses (by Nunu)
14 - Hurt - Johnny Cash (by Dringola)
Mais alguma?
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Mulher é um bicho estranho, mesmo...
Só porque a garota dançou 15 minutinhos agarrada ao maior astro pop dos últimos 20 anos durante um show para no mínimo 70 mil pessoas e acompanhado por outras estimadas 100 mil em casa, não quer dizer que ela mereça tudo isso.
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Mariana – ou o dia em que quis ter sido santo
Na 2ª série, Mariana era uma garota feia. Gorda, cheia de sardas, cabelo mau tratado, roupas apertadas e desbotadas e - pior de tudo - uma inteligência não muito privilegiada. Logo, sem atrativos para meninos e meninas. Mas diferente de eu - que era um garoto magrelo, branquelo e tímido - ela começava a sofrer as típicas pressões sociais que a obrigavam a ser mulher em corpo e mente. Ao contrário dos machos, que nessa idade ainda não possuem sequer pêlos pelo corpo (salvo exceções das quais ninguém queria fazer parte), as fêmeas já se preparam para a puberdade, o que significa transformarem-se em objetos de desejos obscenos daqueles.
Mas não era o caso de Mariana. Enquanto as amigas já possuíam um par de montes pontudos sob a camiseta do uniforme, e os shorts de lycra de educação física começam a apertar as coxas que engrossavam, ela ostentava apenas uma rotunda circunferência sob o agasalho - que não tirava por nada. Eu observava. Observava com pena e certa simpatia. Assim como ela, eu também não era dos mais populares, já que não praticava esportes e gostava de desenhar alienígenas.
E ela sabia de minha paixão pelo desenho. Tanto que no final do ano, por conta de um amigo-secreto, me presenteou com um estojo de hidrocores. "Só podia te dar isso, né? Você não parar de desenhar", disse, sorrindo, solícita, como que pedindo por atenção. Senti vergonha. Apesar de dividirmos o mesmo status social escolar, não queria ser visto conversando com ela, ou mesmo estar perto dela. Queria - assim como todos os outros garotos - dividir minha mesa com a filha da professora que, apesar de ser um poço de antipatia, era um primor de beleza pré-púbere.
Mas o ano acabou. E Mariana saiu da escola.
Eu continuei e cheguei até a 5ª série, ainda magrelo e branquelo, mas já quase sem o tesão pelo desenho e com uma disfluência de fala que começava a se agravar. Ela não. Retornou cheia de curvas bem delineadas. Nem sombra da gordinha estapafúrdia de outrora. Estava uma delícia, era inegável, embora permanecesse com a inteligência bem pouco privilegiada. O que, claro, deixou de ser impecilho, já que pouco importa se seus miolos funcionam quando se tem um belo par de peitos e nádegas firmes e luxuriosas.
E ela as tinha. Diziam as más línguas - inveja, claro - que ela havia comprado tudo aquilo. Spa, lipoaspiração e essas intervenções todas. Pouco importava. Mariana agora dominava a parada. Era dela todos os olhares masculinos de admiração e todos os olhares femininos de raiva.
E ela foi a forra. Beijava os caras mais populares nas excursões. Atraia o desejo até dos marmanjos do Colegia. Ela escolhia e derrubava. Ninguém mais podia com ela.
Nessa época, pensava que, se tivesse sido um pouco mais legal com ela quando ainda ostentava o perfil de uma barrica de chopp, talvez tivesse alguma chance agora, algo como uma recompensa. Mas pensando bem, acho que não. Mariana não queria misericórdia. Queria vingança. Queria esfregar na cara de toda aquela gente que ela também podia ser como eles. E foi isso que se tornou. Em pouco tempo, também estava zuando as novas gordinhas da classe. E eu voltei a desenhar alienígenas.
Mas não era o caso de Mariana. Enquanto as amigas já possuíam um par de montes pontudos sob a camiseta do uniforme, e os shorts de lycra de educação física começam a apertar as coxas que engrossavam, ela ostentava apenas uma rotunda circunferência sob o agasalho - que não tirava por nada. Eu observava. Observava com pena e certa simpatia. Assim como ela, eu também não era dos mais populares, já que não praticava esportes e gostava de desenhar alienígenas.
E ela sabia de minha paixão pelo desenho. Tanto que no final do ano, por conta de um amigo-secreto, me presenteou com um estojo de hidrocores. "Só podia te dar isso, né? Você não parar de desenhar", disse, sorrindo, solícita, como que pedindo por atenção. Senti vergonha. Apesar de dividirmos o mesmo status social escolar, não queria ser visto conversando com ela, ou mesmo estar perto dela. Queria - assim como todos os outros garotos - dividir minha mesa com a filha da professora que, apesar de ser um poço de antipatia, era um primor de beleza pré-púbere.
Mas o ano acabou. E Mariana saiu da escola.
Eu continuei e cheguei até a 5ª série, ainda magrelo e branquelo, mas já quase sem o tesão pelo desenho e com uma disfluência de fala que começava a se agravar. Ela não. Retornou cheia de curvas bem delineadas. Nem sombra da gordinha estapafúrdia de outrora. Estava uma delícia, era inegável, embora permanecesse com a inteligência bem pouco privilegiada. O que, claro, deixou de ser impecilho, já que pouco importa se seus miolos funcionam quando se tem um belo par de peitos e nádegas firmes e luxuriosas.
E ela as tinha. Diziam as más línguas - inveja, claro - que ela havia comprado tudo aquilo. Spa, lipoaspiração e essas intervenções todas. Pouco importava. Mariana agora dominava a parada. Era dela todos os olhares masculinos de admiração e todos os olhares femininos de raiva.
E ela foi a forra. Beijava os caras mais populares nas excursões. Atraia o desejo até dos marmanjos do Colegia. Ela escolhia e derrubava. Ninguém mais podia com ela.
Nessa época, pensava que, se tivesse sido um pouco mais legal com ela quando ainda ostentava o perfil de uma barrica de chopp, talvez tivesse alguma chance agora, algo como uma recompensa. Mas pensando bem, acho que não. Mariana não queria misericórdia. Queria vingança. Queria esfregar na cara de toda aquela gente que ela também podia ser como eles. E foi isso que se tornou. Em pouco tempo, também estava zuando as novas gordinhas da classe. E eu voltei a desenhar alienígenas.
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
Não sei porque perco tempo explicando essas coisas
- Mas ele canta com o nariz!
- Ele não canta. Quem canta é cantor, e ele não é um cantor. É um poeta. A voz é o de menos. Se você quer ouvir um cantor, vai ouvir o Fábio Júnior.
- Ah, então porque ele não escreve apenas ao invés de gravar um CD?
- Porque dessa forma a mensagem dele vai atingir mais pessoas.
- Mas é em inglês! Quem não sabe inglês, não tem como saber o que ele tá falando. Mas se ele cantasse direito, tivesse uma voz bonita, isso não iria importar.
- Ele canta em inglês porque nasceu e se criou nos Estados Unidos. Se fosse na Birmânia, faria o mesmo em birmanês. E já falei que quem gosta dele não gosta pela voz, gosta pela poesia das letras, e, se forçar, pelos arranjos das músicas. E conhece um pouco de inglês também.
- Ainda acho que ele canta com o nariz.
- Quer que ele tire o nariz para cantar?
- Ah, besta, você entendeu o que eu quis dizer.
- Infelizmente.
- Ele não canta. Quem canta é cantor, e ele não é um cantor. É um poeta. A voz é o de menos. Se você quer ouvir um cantor, vai ouvir o Fábio Júnior.
- Ah, então porque ele não escreve apenas ao invés de gravar um CD?
- Porque dessa forma a mensagem dele vai atingir mais pessoas.
- Mas é em inglês! Quem não sabe inglês, não tem como saber o que ele tá falando. Mas se ele cantasse direito, tivesse uma voz bonita, isso não iria importar.
- Ele canta em inglês porque nasceu e se criou nos Estados Unidos. Se fosse na Birmânia, faria o mesmo em birmanês. E já falei que quem gosta dele não gosta pela voz, gosta pela poesia das letras, e, se forçar, pelos arranjos das músicas. E conhece um pouco de inglês também.
- Ainda acho que ele canta com o nariz.
- Quer que ele tire o nariz para cantar?
- Ah, besta, você entendeu o que eu quis dizer.
- Infelizmente.
Acho que sou caucasiano demais para isso...
Comentário de Isabelle Biajoni no site do papai, a respeito do show dos Rolling Stones, me fez sentir uma fisgada estranhamente conhecida na porção posterior-lateral do estômago:
"pow... o morrão vai descer todo!"
Sim, ela disse isso. E com conhecimento de causa, posto ser carioca da gema, o que me fez sentir nova e mais forte puxadela, desta vez na boca do dito aparelho digestivo.
Acho que vai dar merda. Alguém tem um antiácido sobrando?
"pow... o morrão vai descer todo!"
Sim, ela disse isso. E com conhecimento de causa, posto ser carioca da gema, o que me fez sentir nova e mais forte puxadela, desta vez na boca do dito aparelho digestivo.
Acho que vai dar merda. Alguém tem um antiácido sobrando?
terça-feira, janeiro 24, 2006
Cinema mudo
TV a cabo é o maior embuste da era moderna. Te dá trocentos canais que você não consegue assistir UM que seja. Quero encontrar um sujeito que diga que "não perde um documentário sobre a tomada da praia de Omaha no History Channel" ou "aquele filmaço cucaracho no Telemundo". O fato é que ninguém consegue assistir ao que realmente quer na TV a cabo. Só quem tem sabe. E - olha só - isso pode ser uma vantagem. Principamente para insônes. Porque cedo ou tarde, você acaba surpeendido por algo que não esperava e acabar gostando.
Zapear pelos 32 canais do meu pacote básico é atividade idem para um início de madrugada. E geralmente começa pelo canal 32, o Max Prime, que tem programação voltada para filmes de todos os gêneros, épocas e idades. Nada muito novo, claro (para isso existem os Telecines e HBOs). E às vezes - beeeeeem às vezes - é possível topar com alguma coisa interessante. Aconteceu comigo numa dessas madrugadas, quando conheci "Spun".
Fui fisgado desde o início, quando os nomes dos atores e seus respectivos personagens começam a aparecer na tela com fontes estilizadas. No fundo, uma canção aparentemente desconhecida, entoada a base de banquinho e violão, pelo cabeça de abóbora Billy Corgan (que também é responsável pelo restante da trilha sonora do filme). "Esquisito", pensei, "a melodia não me é estranha". Aí vem o refrão e entrega tudo: "Six, sixty, sixty, the number of the beast. Hell and fire was spawned to be released". "Caralho! É ´The Number of the Beast´, do Iron Maiden. Só que em versão acústica! Eita...", pensei. Então fiquei e assisti até o final.
Além da presença ilustre de Corgan, a trilha sonora ainda conta com Ozzy, T-Rex, Hellacopters, e outros. Coisa fina para um fim de noite, para quando os neurônios já estão como o desses caras ou como os dos personagens do filme. Que, claro, só poderiam ter saído da cabeça do alucinadaço Jonas Akerlund, responsável pelos melhores e mais premiados videoclipes de gente como Maddona, Moby, Prodigy, U2, Cardigans, Smashing Pumpkins, Mettalica e Iggy Pop.
Daí explica-se a estética visual frenética do filme, montado em linguagem de videoclipe. Cheio de cortes e passagens rápidas, contraste de matizes, closes exagerados, captação de detalhes desfocados e mistura de animação, película e documentário. Lindo e eficiente, pois dá espaço para boas atuações de atores que, salvo exceções, resumem suas carreiras a filmes comportados e voltados para o grande público. Numa obra experimental como "Spun", dá pra ver a gatinha Brittany Murphy, por exemplo, se perfazendo em drogas e striptease; ou o eterno latin boy John Leguizamo nu, se masturbando com uma meia no melhor estilo Red Hot Chili Peppers.
E tem ainda a doce vocalista do Blondie, Debbie Harry, como uma motociclista lésbica durona; o assumido vocalista do Judas Priest, Rob Ralford, como dono de uma locadora de vídeos pornôs; e o próprio Billy Corgan como um médico suspeitíssimo.
Mas o melhor mesmo fica por conta do pai-de-todos dos drogadictos. Mickey Rourke, de botas e chapéu de couro brancos, interpreta um "inventor" de drogas, que passa o dia trancado num quarto de hotel barato, respirando (e piranco com) os gases de suas invenções, assistindo luta-livre e telefonando para prostitutas que atendem a domicílio.
E é nisso que o roteiro se apoia. As desventuras de um garoto e seu traficante em busca de drogas, de amores perdidos, a cura para um cachorro que ficou verde depois de ingerir substâncias suspeitas, policiais querendo aparecer na TV, enfim: nada sobre nada. Nada de muito importante. Nada que vá mudar a vida de ninguém. Mas tudo muito legal. O que, em se tratando de TV a cabo, já é muita coisa.
Zapear pelos 32 canais do meu pacote básico é atividade idem para um início de madrugada. E geralmente começa pelo canal 32, o Max Prime, que tem programação voltada para filmes de todos os gêneros, épocas e idades. Nada muito novo, claro (para isso existem os Telecines e HBOs). E às vezes - beeeeeem às vezes - é possível topar com alguma coisa interessante. Aconteceu comigo numa dessas madrugadas, quando conheci "Spun".
Fui fisgado desde o início, quando os nomes dos atores e seus respectivos personagens começam a aparecer na tela com fontes estilizadas. No fundo, uma canção aparentemente desconhecida, entoada a base de banquinho e violão, pelo cabeça de abóbora Billy Corgan (que também é responsável pelo restante da trilha sonora do filme). "Esquisito", pensei, "a melodia não me é estranha". Aí vem o refrão e entrega tudo: "Six, sixty, sixty, the number of the beast. Hell and fire was spawned to be released". "Caralho! É ´The Number of the Beast´, do Iron Maiden. Só que em versão acústica! Eita...", pensei. Então fiquei e assisti até o final.
Além da presença ilustre de Corgan, a trilha sonora ainda conta com Ozzy, T-Rex, Hellacopters, e outros. Coisa fina para um fim de noite, para quando os neurônios já estão como o desses caras ou como os dos personagens do filme. Que, claro, só poderiam ter saído da cabeça do alucinadaço Jonas Akerlund, responsável pelos melhores e mais premiados videoclipes de gente como Maddona, Moby, Prodigy, U2, Cardigans, Smashing Pumpkins, Mettalica e Iggy Pop.
Daí explica-se a estética visual frenética do filme, montado em linguagem de videoclipe. Cheio de cortes e passagens rápidas, contraste de matizes, closes exagerados, captação de detalhes desfocados e mistura de animação, película e documentário. Lindo e eficiente, pois dá espaço para boas atuações de atores que, salvo exceções, resumem suas carreiras a filmes comportados e voltados para o grande público. Numa obra experimental como "Spun", dá pra ver a gatinha Brittany Murphy, por exemplo, se perfazendo em drogas e striptease; ou o eterno latin boy John Leguizamo nu, se masturbando com uma meia no melhor estilo Red Hot Chili Peppers.
E tem ainda a doce vocalista do Blondie, Debbie Harry, como uma motociclista lésbica durona; o assumido vocalista do Judas Priest, Rob Ralford, como dono de uma locadora de vídeos pornôs; e o próprio Billy Corgan como um médico suspeitíssimo.
Mas o melhor mesmo fica por conta do pai-de-todos dos drogadictos. Mickey Rourke, de botas e chapéu de couro brancos, interpreta um "inventor" de drogas, que passa o dia trancado num quarto de hotel barato, respirando (e piranco com) os gases de suas invenções, assistindo luta-livre e telefonando para prostitutas que atendem a domicílio.
E é nisso que o roteiro se apoia. As desventuras de um garoto e seu traficante em busca de drogas, de amores perdidos, a cura para um cachorro que ficou verde depois de ingerir substâncias suspeitas, policiais querendo aparecer na TV, enfim: nada sobre nada. Nada de muito importante. Nada que vá mudar a vida de ninguém. Mas tudo muito legal. O que, em se tratando de TV a cabo, já é muita coisa.
quarta-feira, janeiro 18, 2006
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Divisão
- Vai, pode começar escolhendo. Um Beatle.
- Lennon.
- Esse já foi, você escolheu na última rodada. Escolhe outro.
- Tá. Ah... Ringo, vai.
- Tá. Um Rolling Stone.
- Mick Jagger.
- Um rei.
- Elvis.
- Já foi também, pomba! Checa aí.
- Verdade. Então quero... Jonnhy Rotten.
- Hum. Um branco.
- O Ozzy.
- Um negro.
- James Brown.
- Uma mulher.
- Courtney Love.
- Um ditador.
- O Johnny Ramone já foi, né? Então eu fico com o... Axl Rose.
- Um gay.
- Lou Reed.
- Um Turner.
- Ike.
- Um dos 3 Tenores.
- Pavarotti, claro.
- Um X-men.
- Wolverine.
- Aí, tá vendo? Você tá ficando com os mais legais de novo!
- Ué? Você me deixou escolher primeiro...
- Ah, não. Ô pai, olha o Lú trapaceando! Ele não sabe brincar direito.
- Lúcifer, deixa disso, meu filho...
- Eu, não, pai! Tenho culpa que o Jesus é bocó e só escolhe bunda-mole?
- Não escolho, não! Mas você sempre fica com os divertidos, enquanto só me sobra... ah, você sabe... E além do mais, o jogo é meu.
- Mas as peças são minhas.
- Mas as regras são minhas.
- Então escolhe outro pra brincar. Besta.
- Tonto.
- Chega os dois. Vou guardar isso. Você, já pro seu quarto lá embaixo e só saia quando eu mandar. E você a mesma coisa. E chega de manha.
- Tá bom, pai.
- Lennon.
- Esse já foi, você escolheu na última rodada. Escolhe outro.
- Tá. Ah... Ringo, vai.
- Tá. Um Rolling Stone.
- Mick Jagger.
- Um rei.
- Elvis.
- Já foi também, pomba! Checa aí.
- Verdade. Então quero... Jonnhy Rotten.
- Hum. Um branco.
- O Ozzy.
- Um negro.
- James Brown.
- Uma mulher.
- Courtney Love.
- Um ditador.
- O Johnny Ramone já foi, né? Então eu fico com o... Axl Rose.
- Um gay.
- Lou Reed.
- Um Turner.
- Ike.
- Um dos 3 Tenores.
- Pavarotti, claro.
- Um X-men.
- Wolverine.
- Aí, tá vendo? Você tá ficando com os mais legais de novo!
- Ué? Você me deixou escolher primeiro...
- Ah, não. Ô pai, olha o Lú trapaceando! Ele não sabe brincar direito.
- Lúcifer, deixa disso, meu filho...
- Eu, não, pai! Tenho culpa que o Jesus é bocó e só escolhe bunda-mole?
- Não escolho, não! Mas você sempre fica com os divertidos, enquanto só me sobra... ah, você sabe... E além do mais, o jogo é meu.
- Mas as peças são minhas.
- Mas as regras são minhas.
- Então escolhe outro pra brincar. Besta.
- Tonto.
- Chega os dois. Vou guardar isso. Você, já pro seu quarto lá embaixo e só saia quando eu mandar. E você a mesma coisa. E chega de manha.
- Tá bom, pai.
quarta-feira, janeiro 11, 2006
Pêlos
O negócio é que não tenho muitos pêlos. Embora as pernas e braços tenham quantidade suficiente para fazer um volume considerável, tal pelagem é de cor dourada, quase imperceptível para quem enxerga de longe. Num olhada rápida, sou é pelado. Ou depilado.
Entretanto, a natureza gosta de fazer piada. Como não tenho predisposição genética para vestir casaco - ao contrário do Bia e do Denis - acabei por ser contemplado com meia dúzia de longos e grossos grupos de pêlos esparsamente alojados no peito. O que é, convenhamos, ridículo. Pior que não possuir um peito cabeludo, é possuir um peito meio cabeludo. E isso me incomoda deveras, ainda mais por ostentar, do lado esquerdo do torso, uma tatuagem que custou duas horas de dor da mais lancinante e que merece ser mostrada em toda sua forma e traço.
O quê fazer então? Arrancar fora, claro. No começo, utilizava uma pinça. Em frente ao espelho do armário, arrancava os fios, um a um, com força. Mas doía demais para uma operação que, vá lá, nem era assim tão importante. Passei, então, para a depilação com lâmina de barbear. E funcionou. Enquanto faço a barba, deixo a espuma escorrer para o peito e raspo tudo. Eles crescem novamente, claro, mas eu raspo de novo e digo que o corpo é meu e quem manda nele sou eu. Não vou deixar um grupo de pêlos se amotinarem e fazer o que querem. Tenho uma imagem a zelar, oras.
Mas eis que, ao aparar a barba esta semana, olhei para baixo e vi minha barriga. Minha barriga, que mesmo não sendo nenhum exemplo de boa forma, é simpática e, encolhida, chega a dar a impressão que seu dono é chegadíssimo duma academia de musculação. Porém, ela tem pêlos.
Sim, minha barriga, mais que meu peito e até os braços, possui pêlos. E eles estão disposto numa formação até interessante, como se formassem um funil. Legal. Então deixo a espuma da barba escorrer um pouco mais. E passo o Sensor Excel na barriga.
Sou um homem de barriga nua agora. Ou melhor, de torso nu. Não há sequer vestígio de pêlos sobre meu tórax. Do pescoço até a cintura, estou liso como a virilha de uma atriz pornô norte-americana pronta para a ação. Achei que ficou legal. Um tanto estranho, ainda, mas legal. É como se nunca tivesse existido nada ali. Que coisa...
Entretanto, a natureza gosta de fazer piada. Como não tenho predisposição genética para vestir casaco - ao contrário do Bia e do Denis - acabei por ser contemplado com meia dúzia de longos e grossos grupos de pêlos esparsamente alojados no peito. O que é, convenhamos, ridículo. Pior que não possuir um peito cabeludo, é possuir um peito meio cabeludo. E isso me incomoda deveras, ainda mais por ostentar, do lado esquerdo do torso, uma tatuagem que custou duas horas de dor da mais lancinante e que merece ser mostrada em toda sua forma e traço.
O quê fazer então? Arrancar fora, claro. No começo, utilizava uma pinça. Em frente ao espelho do armário, arrancava os fios, um a um, com força. Mas doía demais para uma operação que, vá lá, nem era assim tão importante. Passei, então, para a depilação com lâmina de barbear. E funcionou. Enquanto faço a barba, deixo a espuma escorrer para o peito e raspo tudo. Eles crescem novamente, claro, mas eu raspo de novo e digo que o corpo é meu e quem manda nele sou eu. Não vou deixar um grupo de pêlos se amotinarem e fazer o que querem. Tenho uma imagem a zelar, oras.
Mas eis que, ao aparar a barba esta semana, olhei para baixo e vi minha barriga. Minha barriga, que mesmo não sendo nenhum exemplo de boa forma, é simpática e, encolhida, chega a dar a impressão que seu dono é chegadíssimo duma academia de musculação. Porém, ela tem pêlos.
Sim, minha barriga, mais que meu peito e até os braços, possui pêlos. E eles estão disposto numa formação até interessante, como se formassem um funil. Legal. Então deixo a espuma da barba escorrer um pouco mais. E passo o Sensor Excel na barriga.
Sou um homem de barriga nua agora. Ou melhor, de torso nu. Não há sequer vestígio de pêlos sobre meu tórax. Do pescoço até a cintura, estou liso como a virilha de uma atriz pornô norte-americana pronta para a ação. Achei que ficou legal. Um tanto estranho, ainda, mas legal. É como se nunca tivesse existido nada ali. Que coisa...
segunda-feira, janeiro 09, 2006
Canção para o fim da adolescência
When you're talking to yourselfAnd nobody's homeYou can fool yourselfYou came in this world alone...(alone)So nobody ever told you baby, how it was gonna beSo What'll happen to you baby?Guess we'll have to wait and see...1, 2....Old at heart. But I'm only 28And I'm much too young to let love break my heartYoung at heart. But it's getting much too lateTo find ourselves so far apartI don't know how you're supposed to find me latelyAnd what more could you ask from me?How could you say that I never needed youWhen you took everythingSaid you took everything from me...Young at heart. And it gets so hard to waitWhen no one I know can seem to help me nowOld at heart. But I mustn't hesitateIf I'm to find my own way outStill talking to myself. And nobody's home.....(alone)So nobody ever told us baby, how it was gonna beSo What'll happen to us baby?Guess we'll have to wait and seeWhen I find all of the reasonsMaybe I'll find another wayFind another dayWith all the changing seasons of my lifeMaybe i'll get it right next timeAnd now that you've been broken downGot your head out of the cloudsYou're back down on the groundYou don't talk so loud, and you don't walk so proudAnymore. and what for?Well I jumped into the riverToo many times to make it homeI'm out here on my ownDrifting all aloneIf it doesn't showGive it time to read between the lines'Cause I see the storm is getting closerAnd the waves, they get so highSeems everything we've ever known is hereWhy must it drift away and die?I'll never find anyone to replace youGuess I'll have to make it throughThis time, oh this time, without youI knew the storm was getting closerAnd all my friends said I was highBut everything we've ever known's hereI never wanted it to die
quinta-feira, janeiro 05, 2006
Filme pornô de chuva
- Droga de chuva. Me molhei toda. Me empresta uma toalha?
- Claro. Tome.
- Obrigada.
- Nossa, você é um tesão.
- Então me fode.
- Demorô, gostosa.
- Claro. Tome.
- Obrigada.
- Nossa, você é um tesão.
- Então me fode.
- Demorô, gostosa.
Filme pornô de Ano Novo
- Não vai ter post sobre o Ano Novo?
- Nem.
- Por que?
- Sigo o calendário Maia.
- Uau, que tesão. Me come?
- Demorô, gostosa.
- Nem.
- Por que?
- Sigo o calendário Maia.
- Uau, que tesão. Me come?
- Demorô, gostosa.
terça-feira, janeiro 03, 2006
A pessoa é para o que nasce
Conheci Elise na 7ª série. Era a típica evangélica de classe média adolescente, com tudo o que manda o figurino: cabelo comprido até a cintura, aversa ao uso de calça, desleixada com os estudos e consigo mesma. Gostava de praticar esportes, por isso ia bem em Educação Física, talvez por isso a única área em que conseguia nota acima da média. Na capa do fichário, uma única foto de rosto do ator Brad Pitt cobria o espaço. Mas a fala arrastada e o olha de bagre-morto denunciavam um outro destino para ela. Elise não seria uma mãe de família, tampouco uma fanática religiosa gorducha e de cabelo ensebado com sete filhos a tiracolo. Nem optaria por nenhuma dessas carreiras disponíveis nos manuais de vestibular. Como Édipo, Elise já possuia um destino traçado. Era apenas, claro, uma questão de tempo.
O que não demorou muito. Os primeiros sinais apareceram logo no ano seguinte. Na 8ª série, ela havia cortado os cabelos e aderido ao uso de saias hippies. Na verdade, adotara não apenas um visual, mas uma postura "alternativa" também. O olhar de bagre-morto havia se transformado em um ar blasé para tudo e todos. As aulas, até mesmo as de Educação Física, haviam se tornado apenas um contratempo inócuo para o grand finale que a vida lhe preparava.
Já no último ano do Colegial, Brad Pitt cedeu lugar a Marcelo D2 como ídolo. As aulas não eram mais assistidas, e sim dormidas, embaladas sob o fino efeito de maconha. No pescoço, ostentava uma piteira artesanal para tal fim, feita de bambu e Durepox. Sandálias de tiras de couro cru, saias indianas e blusinhas puídas cobriam seu pequeno e mirrado corpo. A única coisa que a remetia aos tempos idos era o desleixo com a aparência: banho parecia ser coisa cara e totalmente inacessível.
O Colegial acabou e perdi contato com Elise. Dois anos depois, pelos jornais, fico sabendo que ela havia sido fichada na polícia por ter tentado furtar uma cadeira de um shopping da cidade. "Era para uma república de um camarada", me disse, tempos depois, e um inesperado encontro no ônibus da faculdade, que ele havia subido como carona para chegar até a tal república. Não, ela não havia entrado em nenhum curso superior. "Ano que vem vou para a Espanha", respondeu apenas. O ônibus parou e novamente perdi contato com Elise.
Agora, cinco anos depois, a reencontro de maneira mais inesperada ainda. Na padaria onde costumo jantar (figura de linguagem, claro), no meio de uma discussão sobre incentivo cultural outras besteiras, vejo Elise entrar. O mesmo cabelo ensebado. A mesma saia indiana e blusinha puída. Chamo sua atenção. Ela se mostra surpresa com o comprimento do meu cabelo. Pergunto, claro, sobre sua vida. "Então, fui para a Espanha. Já faz cinco anos. Vim só para o Natal e Ano Novo, logo eu volto", diz. O que ela faz por lá? "Ah, virei hippie. Uma hippie européia", desembucha. Conta que vive de artesanato. Passou logo tempo em cidades do litoral e agora está nas montanhas. "Pulseirinhas, tornozeleira, colar, anel, essas coisa", detalha ela, antes de sair embora com um saco de pão e uma garrafa de Coca-Cola nas mãos.
A discussão na mesa reinicia, mas só consigo pensar numa frase que certa vez vi estampada na camisa do Bi Ribeiro, baixista dos Paralamas do Sucesso: a pessoa é para o que nasce. O dito é, na verdade, título de um documentário sobre três irmãs cegas de Campina Grande, na Paraíba, que vivem de cantar em troca de esmolas. Não assisti ao filme, que dizem ser de uma beleza ímpar.
Entretanto, o ar profético, e ao mesmo tempo cruel do título, me fez pensar numa hipótese que sempre descartei. A de que estamos atados a um fim já programado. Que não importa o que façamos nesse meio tempo, pois o resultado é um só e já está determinado. O mito de Édipo é perfeito nesse sentido. Era seu destino matar o pai e tomar a mãe como esposa, tal o oráculo havia previsto. De nada adiantou seu pai afastá-lo do seio da família e mandar matá-lo.
O mesmo pode ser aplicado a Elise. Ela jamais seria uma boa contabilista, uma enfermeira bem sucedida ou uma aeromoça aplicada. A escola, os sub empregos, a vida na cidadezinha do interior, os conselhos da mãe, a criação sob a égide da religião, de nada serviram. Na verdade, serviram apenas como antepasto. Podem ter enganado a fome do destino por um tempo, mas ele é insaciável até que se deleite com o prato principal, quando se esbalda e faz valer sua vontade.
Elise só poderia ter sido hippie. Assim como todos nós, não pôde escapar de seu destino. Ou não?
O que não demorou muito. Os primeiros sinais apareceram logo no ano seguinte. Na 8ª série, ela havia cortado os cabelos e aderido ao uso de saias hippies. Na verdade, adotara não apenas um visual, mas uma postura "alternativa" também. O olhar de bagre-morto havia se transformado em um ar blasé para tudo e todos. As aulas, até mesmo as de Educação Física, haviam se tornado apenas um contratempo inócuo para o grand finale que a vida lhe preparava.
Já no último ano do Colegial, Brad Pitt cedeu lugar a Marcelo D2 como ídolo. As aulas não eram mais assistidas, e sim dormidas, embaladas sob o fino efeito de maconha. No pescoço, ostentava uma piteira artesanal para tal fim, feita de bambu e Durepox. Sandálias de tiras de couro cru, saias indianas e blusinhas puídas cobriam seu pequeno e mirrado corpo. A única coisa que a remetia aos tempos idos era o desleixo com a aparência: banho parecia ser coisa cara e totalmente inacessível.
O Colegial acabou e perdi contato com Elise. Dois anos depois, pelos jornais, fico sabendo que ela havia sido fichada na polícia por ter tentado furtar uma cadeira de um shopping da cidade. "Era para uma república de um camarada", me disse, tempos depois, e um inesperado encontro no ônibus da faculdade, que ele havia subido como carona para chegar até a tal república. Não, ela não havia entrado em nenhum curso superior. "Ano que vem vou para a Espanha", respondeu apenas. O ônibus parou e novamente perdi contato com Elise.
Agora, cinco anos depois, a reencontro de maneira mais inesperada ainda. Na padaria onde costumo jantar (figura de linguagem, claro), no meio de uma discussão sobre incentivo cultural outras besteiras, vejo Elise entrar. O mesmo cabelo ensebado. A mesma saia indiana e blusinha puída. Chamo sua atenção. Ela se mostra surpresa com o comprimento do meu cabelo. Pergunto, claro, sobre sua vida. "Então, fui para a Espanha. Já faz cinco anos. Vim só para o Natal e Ano Novo, logo eu volto", diz. O que ela faz por lá? "Ah, virei hippie. Uma hippie européia", desembucha. Conta que vive de artesanato. Passou logo tempo em cidades do litoral e agora está nas montanhas. "Pulseirinhas, tornozeleira, colar, anel, essas coisa", detalha ela, antes de sair embora com um saco de pão e uma garrafa de Coca-Cola nas mãos.
A discussão na mesa reinicia, mas só consigo pensar numa frase que certa vez vi estampada na camisa do Bi Ribeiro, baixista dos Paralamas do Sucesso: a pessoa é para o que nasce. O dito é, na verdade, título de um documentário sobre três irmãs cegas de Campina Grande, na Paraíba, que vivem de cantar em troca de esmolas. Não assisti ao filme, que dizem ser de uma beleza ímpar.
Entretanto, o ar profético, e ao mesmo tempo cruel do título, me fez pensar numa hipótese que sempre descartei. A de que estamos atados a um fim já programado. Que não importa o que façamos nesse meio tempo, pois o resultado é um só e já está determinado. O mito de Édipo é perfeito nesse sentido. Era seu destino matar o pai e tomar a mãe como esposa, tal o oráculo havia previsto. De nada adiantou seu pai afastá-lo do seio da família e mandar matá-lo.
O mesmo pode ser aplicado a Elise. Ela jamais seria uma boa contabilista, uma enfermeira bem sucedida ou uma aeromoça aplicada. A escola, os sub empregos, a vida na cidadezinha do interior, os conselhos da mãe, a criação sob a égide da religião, de nada serviram. Na verdade, serviram apenas como antepasto. Podem ter enganado a fome do destino por um tempo, mas ele é insaciável até que se deleite com o prato principal, quando se esbalda e faz valer sua vontade.
Elise só poderia ter sido hippie. Assim como todos nós, não pôde escapar de seu destino. Ou não?
quarta-feira, dezembro 28, 2005
Daniela
Daniela é uma puta. Como todas as mulheres de verdade, ela é uma puta. Mas não porque faz sexo por dinheiro, afinal, já tem sua profissão muito bem afinada com sua vocação. Tampouco por sair copulando a torto e a direito, pois isso não faria dela uma puta, e sim uma vadia. E nem toda vadia pode ser uma puta. As putas de verdade não são vadias. São mulheres. E toda mulher de verdade é uma puta. Uma puta porque sabe como transformar garotos em homens, e homens em garotos. E Daniela, como boa puta que é, me transformou em homem.
Na avenida mais movimentada da cidade, numa noite de Natal chuvosa, me obrigou a estacionar entre dois carros. Eu, que mal havia conseguido minha permissão para dirigir. "Vai, bota o carro aí ou não vai ter isso aqui", disse, levantando a saia e exibindo a renda de uma meia 7/8 preta e o início de uma cinta-liga. Quinze minutos depois, lá estava o Santana 2.0 1999 do meu pai encaixado rente à guia. Daniela foi a primeira mulher que me fez fazer uma baliza. E também a última.
Juntos, ela não me deixava ir além de uma nesga de seio, cujos mamilos rosados me faziam ter a maior das ereções. No máximo, me permitiu masturbá-la uma vez. Jamais tocou em meu sexo. Sequer tirou-me as calças. Chegou, sim, ainda na mesma noite e na mesma avenida, a insinuar um toque, subindo em meus quadris e enfiando 2/3 de dedos dentro de minha cueca, enquanto empinava o nariz, desafiadora, e lambia os lábios. Foi o suficiente.
Suas pernas, logo, nunca me foram abertas de fato. Embora gostasse de entrelaçá-las em minhas costas, simulando um coito infantil e imprestável, nunca chegamos as vias de fato. Como diria Caetano, fazíamos um sexo não-ortodoxo a nosso modo. Ou ao modo dela, para ser mais preciso. Ela era a puta. E eu, o garoto que precisa ser transformado em homem. E ainda assim, sem nunca tê-la jamais penetrado, sequer sentido o cheiro de seu sexo, após uma noite com ela, me sentia o mais deflorado dos homens.
Mesmo não sendo mais virgem à época, era como se ela tivesse sido minha primeira mulher.
Mas Daniela é uma puta. A mais perfeita das putas. Me fez dançar Emílio Santiago num antigo boteco do shopping, e convenceu meu orgulho de que era melhor não sermos nada mais do que bons amigos.
Enfiada num tubinho preto de veludo, de mangas longas e barra acima dos joelhos, me levou, de calça-cargo, camisa do Kiss e blusa de flanela xadrez amarrada na cintura, para ver qualquer coisa no cinema numa noite chuvosa. Na volta, fez questão de correr até o carro apenas para se molhar e tirar a roupa. Não toda, evidentemente, mas o suficiente para mostrar sua carne alva em contraste com os cabelos e olhos negros. Olhos de puta. Olhos que sabem esperar, que não hesitam em serem cruéis e se fecham sem dizer adeus.
Então ela sumiu. Mastigou meu coração com algo do tipo "não sei", ou "sei lá".
Eu fui ouvir Rolling Stones. Ela casou. Mudou de cidade. Mas não perdeu a vocação de ensinar. Como puta nata que é, virou professora. Ensina para adolescentes imberbes o be-a-bá inútil das apostilas. Mal sabem eles o que estão perdendo. Eu sei.
Na avenida mais movimentada da cidade, numa noite de Natal chuvosa, me obrigou a estacionar entre dois carros. Eu, que mal havia conseguido minha permissão para dirigir. "Vai, bota o carro aí ou não vai ter isso aqui", disse, levantando a saia e exibindo a renda de uma meia 7/8 preta e o início de uma cinta-liga. Quinze minutos depois, lá estava o Santana 2.0 1999 do meu pai encaixado rente à guia. Daniela foi a primeira mulher que me fez fazer uma baliza. E também a última.
Juntos, ela não me deixava ir além de uma nesga de seio, cujos mamilos rosados me faziam ter a maior das ereções. No máximo, me permitiu masturbá-la uma vez. Jamais tocou em meu sexo. Sequer tirou-me as calças. Chegou, sim, ainda na mesma noite e na mesma avenida, a insinuar um toque, subindo em meus quadris e enfiando 2/3 de dedos dentro de minha cueca, enquanto empinava o nariz, desafiadora, e lambia os lábios. Foi o suficiente.
Suas pernas, logo, nunca me foram abertas de fato. Embora gostasse de entrelaçá-las em minhas costas, simulando um coito infantil e imprestável, nunca chegamos as vias de fato. Como diria Caetano, fazíamos um sexo não-ortodoxo a nosso modo. Ou ao modo dela, para ser mais preciso. Ela era a puta. E eu, o garoto que precisa ser transformado em homem. E ainda assim, sem nunca tê-la jamais penetrado, sequer sentido o cheiro de seu sexo, após uma noite com ela, me sentia o mais deflorado dos homens.
Mesmo não sendo mais virgem à época, era como se ela tivesse sido minha primeira mulher.
Mas Daniela é uma puta. A mais perfeita das putas. Me fez dançar Emílio Santiago num antigo boteco do shopping, e convenceu meu orgulho de que era melhor não sermos nada mais do que bons amigos.
Enfiada num tubinho preto de veludo, de mangas longas e barra acima dos joelhos, me levou, de calça-cargo, camisa do Kiss e blusa de flanela xadrez amarrada na cintura, para ver qualquer coisa no cinema numa noite chuvosa. Na volta, fez questão de correr até o carro apenas para se molhar e tirar a roupa. Não toda, evidentemente, mas o suficiente para mostrar sua carne alva em contraste com os cabelos e olhos negros. Olhos de puta. Olhos que sabem esperar, que não hesitam em serem cruéis e se fecham sem dizer adeus.
Então ela sumiu. Mastigou meu coração com algo do tipo "não sei", ou "sei lá".
Eu fui ouvir Rolling Stones. Ela casou. Mudou de cidade. Mas não perdeu a vocação de ensinar. Como puta nata que é, virou professora. Ensina para adolescentes imberbes o be-a-bá inútil das apostilas. Mal sabem eles o que estão perdendo. Eu sei.
quinta-feira, dezembro 22, 2005
Não, não e não
Isso não pode ser verdade. Não pode ser.
Meu inglês só pode estar me pregando uma peça. Eu li errado, tenho certeza.
Pelamor, se alguém realmente entender o que isso significa, me explica, tá? Vou estar ouvindo minha coletânea da Barbra Streisand...
Meu inglês só pode estar me pregando uma peça. Eu li errado, tenho certeza.
Pelamor, se alguém realmente entender o que isso significa, me explica, tá? Vou estar ouvindo minha coletânea da Barbra Streisand...
domingo, dezembro 18, 2005
Tentativa de diálogo
- Como você não gosta de balada, gato?
- Ah, nem curto. Sei lá, princípios, entende? Quer dizer, eu...
- Putz, sou maior baladadeira. Segunda a segunda só na perdição, tá ligado?
- Ahã. Legal.
- Ai, meu, o som, a galera, a azaração, nossa, não vivo sem.
- Ah. É que meu lance é outro.
- Ah, sei. Tá.
- Só ouço aquilo que consigo cantar junto ou dedilhar, sabe? Então eu...
- Ah, gato, eu curto dançar. Nossa, me acabo na pista, tá ligado? Tomo uns daikiris e ninguém me segura, sabe? Nossa, não vivo sem uma balada.
- É, pode crer. Ahã.
- Fora que, tipo assim, sempre tem um gatinho pra gente dar uns beijinhos, trocar uns telefones e tal. Mas nada sério, tá ligado? Vou pra curtir mesmo, e tal.
- Ah, tá. É que é meio difícil conversar com alguém dentro de uma boate, e eu gosto de convesar, então prefiro nem entrar e...
- Pô, gato, mas ninguém tá lá pra conversar, né? A azaração é o que conta, tá ligado? Chega junto, fala qualquer besteirinha e se bater, se for um gatinho, rola alí mesmo, na pista.
- Ahã. É. Sei.
- Vamos em um monte, aí sempre rola um lance meio de desespero, sabe? Então é cada uma por si. Nossa, só risada. A turma é muito da hora, dou muita risada quando saio, tá ligado?
- É mesmo? Mas sabe que...
- Ai, nem tô vendo, sabe, gato? O lance é chegar, chegando, ir pra balada, curtir um montão, zuar mesmo. Eu sou assim, e tipo, sou eu mesma, na minha, totalmente sussa.
- Hã...
- Agora vou indo, gato. Hoje tem trance com pagode na Houzes e nem posso perder. Inclusive, ó, tô aqui com as cortesias pras minhas amigas e tudo.
- Ah, tá. Então tá. Eu só...
- Beijo, vô nessa. A gente se vê por aí.
- Tá...
- Ah, nem curto. Sei lá, princípios, entende? Quer dizer, eu...
- Putz, sou maior baladadeira. Segunda a segunda só na perdição, tá ligado?
- Ahã. Legal.
- Ai, meu, o som, a galera, a azaração, nossa, não vivo sem.
- Ah. É que meu lance é outro.
- Ah, sei. Tá.
- Só ouço aquilo que consigo cantar junto ou dedilhar, sabe? Então eu...
- Ah, gato, eu curto dançar. Nossa, me acabo na pista, tá ligado? Tomo uns daikiris e ninguém me segura, sabe? Nossa, não vivo sem uma balada.
- É, pode crer. Ahã.
- Fora que, tipo assim, sempre tem um gatinho pra gente dar uns beijinhos, trocar uns telefones e tal. Mas nada sério, tá ligado? Vou pra curtir mesmo, e tal.
- Ah, tá. É que é meio difícil conversar com alguém dentro de uma boate, e eu gosto de convesar, então prefiro nem entrar e...
- Pô, gato, mas ninguém tá lá pra conversar, né? A azaração é o que conta, tá ligado? Chega junto, fala qualquer besteirinha e se bater, se for um gatinho, rola alí mesmo, na pista.
- Ahã. É. Sei.
- Vamos em um monte, aí sempre rola um lance meio de desespero, sabe? Então é cada uma por si. Nossa, só risada. A turma é muito da hora, dou muita risada quando saio, tá ligado?
- É mesmo? Mas sabe que...
- Ai, nem tô vendo, sabe, gato? O lance é chegar, chegando, ir pra balada, curtir um montão, zuar mesmo. Eu sou assim, e tipo, sou eu mesma, na minha, totalmente sussa.
- Hã...
- Agora vou indo, gato. Hoje tem trance com pagode na Houzes e nem posso perder. Inclusive, ó, tô aqui com as cortesias pras minhas amigas e tudo.
- Ah, tá. Então tá. Eu só...
- Beijo, vô nessa. A gente se vê por aí.
- Tá...
quinta-feira, dezembro 15, 2005
Essa juventude...
- Vô, que merda é essa?
- É um DVD.
- Dã... eu sei. Mas o que tem nele? Só tem uma língua desenhada...
- Ah, isso foi um culto coletivo que o vovô participou quando era mais novo. Já faz tanto tempo...
- Culto coletivo? Mas você é agnóstico.
- Não. A religião do vovô é a música. Mas você é muito novo pra entender essas coisas. O fato é que, nessa ocasião, os maiores pastores se reuniram para pregar e o vovô foi lá ver.
- Vou colocar, então, tá?
- Tá. Deixa só eu pegar meu Telex e minhas bolinhas. Pronto.
- Nossa, onde foi isso?
- Na Praia de Copacabana, numa cidade chamada Rio de Janeiro. É onde hoje é aquele enorme estacionamento coberto do Wal Mart.
- Caraca... e o quê é praia?
- Era uma faixa de areia com água do mar. É onde hoje é aquele imenso pântano cheio de criaturas radiotivas.
- Hã... Nossa, quanta gente, hein?
- Pois é. Na época, esperavam 1,5 milhão, mas é certo que ultrapassou os 3 milhões. Tinha gente de todo tipo e todas as intenções, mas a maior parte queria mesmo era ouvir a palavra de libertação.
- Desse cara pulando feito uma gazela? Coisa mais afetada...
- Olha a boca, moleque! Quer saber que gosto tem a madeira da minha bengala? Esse é o reverendo mor. Lava a boca antes de falar dele.
- Ô, vô, tá bom, tá bom... e esse outro tocando guitarra? Ele toca fumando?
- Ele fazia tudo fumando. Era o segundo na hierarquia. Tá vendo esse solo? Nessa hora, caí de joelhos e louvei com toda força.
- Eita...
- Olha alí! Olha alí! Pausa! Tá vendo? Olha o vovô alí, de bandana e calça jeans.
- E quem é aquele alí do seu lado com a cabeça enfiada na areia?
- Ah, era o seu tio-avô-de alma, o Denitcho. Nessa hora, ele estava entrando em transe. Como quase todo mundo, na verdade...
- E quando ele volta?
- Nem eu sei. Deve estar em órbita ainda, ou pousado em algum planeta bem melhor que esse. Às vezes, nossa cabeça é o lugar mais seguro para se ficar... Mas toca a fita. Digo, o DVD...
- E essa gostosinha de saia e bota? Putz, ela ergueu a blusa e mostrou os peitos! Locona...
- Nem me diga. Era uma amiga do vovô, sabe... Ei, olha o tamanho desse rapaz.
- Não é o Dringola? O papai fala bastante dele, tem tudo o que é CD dele.
- É, mas na época ele era diagramador do jornal onde o vovô trabalhava e tava começando apenas. Saudades...
- Cadê o Bia?
- Devia estar comprando cerveja ou... ãh... bom, você é muito novo pra saber essas coisas ainda. Mas na época ele era mais que uma cabeça conservada no museu de história natural e um busto na galeria de grandes pensadores do século 21.
- Não é por nada não, mas como eles se mantinham em pé?
- Quer tomar uma bengalada mesmo, né? Eles não eram velhos. Seus corpos podiam ser decrépitos, mas sua música não. E era disso que eles eram feitos e era nisso em que eu acreditava e acredito até hoje.
- E onde eles estão hoje?
- Mortos, claros. Houve um tempo que achávamos que eles jamais morreriam, mas descobrimos que eternos mesmo eles seriam nas retinas de nossas memórias.
- Então por quê nunca ouvi falar deles?
- Porque é muito novo pra isso. Quando for mais crescidinho, vovô te empresta a chave do sótão onde estão umas coisas. Lá vai ter alguma coisa.
- Ah, fala sério, vô! Ele não usam nenhum computador no palco. Não tem nem DJ e... ai, vô, essa bengala dói, pô!
- Juventude de merda. Eles eram homens, não um bando de bichas vestidas com roupinhas descoladas esfregando a mão num disco. Olha alí agora, é a hora do beijo na boca. Putz..
- É, a galera se empolga mesmo com o cara da guitarra. Mas quem é essa garota com você, vovô? É a vovó?
- Sabe que não lembro? Tava tão louco que... ops!
- Humpft! Sei. E como terminou isso tudo?
- E quem disse que terminou? Tá tudo aqui ainda, fervendo meu cérebro. Se bem que podem ser também essas malditas pílulas ou um início de AVC...
- Tá tremendo, vô! Calma, vou chamar o papai...
- Não, deixa. Deixa eu ir com eles.
- Que é isso, vô, é só rock´n´roll!
- Sim, mas eu gosto.
- É um DVD.
- Dã... eu sei. Mas o que tem nele? Só tem uma língua desenhada...
- Ah, isso foi um culto coletivo que o vovô participou quando era mais novo. Já faz tanto tempo...
- Culto coletivo? Mas você é agnóstico.
- Não. A religião do vovô é a música. Mas você é muito novo pra entender essas coisas. O fato é que, nessa ocasião, os maiores pastores se reuniram para pregar e o vovô foi lá ver.
- Vou colocar, então, tá?
- Tá. Deixa só eu pegar meu Telex e minhas bolinhas. Pronto.
- Nossa, onde foi isso?
- Na Praia de Copacabana, numa cidade chamada Rio de Janeiro. É onde hoje é aquele enorme estacionamento coberto do Wal Mart.
- Caraca... e o quê é praia?
- Era uma faixa de areia com água do mar. É onde hoje é aquele imenso pântano cheio de criaturas radiotivas.
- Hã... Nossa, quanta gente, hein?
- Pois é. Na época, esperavam 1,5 milhão, mas é certo que ultrapassou os 3 milhões. Tinha gente de todo tipo e todas as intenções, mas a maior parte queria mesmo era ouvir a palavra de libertação.
- Desse cara pulando feito uma gazela? Coisa mais afetada...
- Olha a boca, moleque! Quer saber que gosto tem a madeira da minha bengala? Esse é o reverendo mor. Lava a boca antes de falar dele.
- Ô, vô, tá bom, tá bom... e esse outro tocando guitarra? Ele toca fumando?
- Ele fazia tudo fumando. Era o segundo na hierarquia. Tá vendo esse solo? Nessa hora, caí de joelhos e louvei com toda força.
- Eita...
- Olha alí! Olha alí! Pausa! Tá vendo? Olha o vovô alí, de bandana e calça jeans.
- E quem é aquele alí do seu lado com a cabeça enfiada na areia?
- Ah, era o seu tio-avô-de alma, o Denitcho. Nessa hora, ele estava entrando em transe. Como quase todo mundo, na verdade...
- E quando ele volta?
- Nem eu sei. Deve estar em órbita ainda, ou pousado em algum planeta bem melhor que esse. Às vezes, nossa cabeça é o lugar mais seguro para se ficar... Mas toca a fita. Digo, o DVD...
- E essa gostosinha de saia e bota? Putz, ela ergueu a blusa e mostrou os peitos! Locona...
- Nem me diga. Era uma amiga do vovô, sabe... Ei, olha o tamanho desse rapaz.
- Não é o Dringola? O papai fala bastante dele, tem tudo o que é CD dele.
- É, mas na época ele era diagramador do jornal onde o vovô trabalhava e tava começando apenas. Saudades...
- Cadê o Bia?
- Devia estar comprando cerveja ou... ãh... bom, você é muito novo pra saber essas coisas ainda. Mas na época ele era mais que uma cabeça conservada no museu de história natural e um busto na galeria de grandes pensadores do século 21.
- Não é por nada não, mas como eles se mantinham em pé?
- Quer tomar uma bengalada mesmo, né? Eles não eram velhos. Seus corpos podiam ser decrépitos, mas sua música não. E era disso que eles eram feitos e era nisso em que eu acreditava e acredito até hoje.
- E onde eles estão hoje?
- Mortos, claros. Houve um tempo que achávamos que eles jamais morreriam, mas descobrimos que eternos mesmo eles seriam nas retinas de nossas memórias.
- Então por quê nunca ouvi falar deles?
- Porque é muito novo pra isso. Quando for mais crescidinho, vovô te empresta a chave do sótão onde estão umas coisas. Lá vai ter alguma coisa.
- Ah, fala sério, vô! Ele não usam nenhum computador no palco. Não tem nem DJ e... ai, vô, essa bengala dói, pô!
- Juventude de merda. Eles eram homens, não um bando de bichas vestidas com roupinhas descoladas esfregando a mão num disco. Olha alí agora, é a hora do beijo na boca. Putz..
- É, a galera se empolga mesmo com o cara da guitarra. Mas quem é essa garota com você, vovô? É a vovó?
- Sabe que não lembro? Tava tão louco que... ops!
- Humpft! Sei. E como terminou isso tudo?
- E quem disse que terminou? Tá tudo aqui ainda, fervendo meu cérebro. Se bem que podem ser também essas malditas pílulas ou um início de AVC...
- Tá tremendo, vô! Calma, vou chamar o papai...
- Não, deixa. Deixa eu ir com eles.
- Que é isso, vô, é só rock´n´roll!
- Sim, mas eu gosto.
segunda-feira, dezembro 12, 2005
Entrevista
- Quer ser repórter de cultura, então?
- Nossa, é o que eu mais quero.
- Legal. Do que gosta de ler?
- Ah, pra falar a verdade, só leio o primeiro caderno da Folha de S. Paulo.
- Não lê a Ilustrada?
- Não, não...
- Hum... e livro? Alguma coisa específica?
- Ah... putz... tô terminando o último do Sidney Sheldon.
- Certo... e música? Tá ouvindo o quê agora?
- Gosto de coisas que ninguém gosta, sabe? Baladinhas românticas tipo Norah Jones, Shanaia Twain, um pouco de Beatles, ah, essas coisas...
- Mas você procura coisas novas, vai atrás e tal ou não?
- Não, nem vou. Nem me ligo muito nessas coisas.
- Ah, tá... E o que te fez gostar de cultura, tipo escrever em um caderno de cultura?
- Ai, porque não gosto de política, acho um saco. E cultura é fácil, e dá pra falar com os artistas, gente famosa, sabe? É isso que me atrai, eu acho.
- Ok. Brigado. Valeu. Entramos em contato.
- Ah, brigada eu.
- Caraca, onde eu coloquei meu vidro de Lexotan, senhor Jesus, rápido!
- Nossa, é o que eu mais quero.
- Legal. Do que gosta de ler?
- Ah, pra falar a verdade, só leio o primeiro caderno da Folha de S. Paulo.
- Não lê a Ilustrada?
- Não, não...
- Hum... e livro? Alguma coisa específica?
- Ah... putz... tô terminando o último do Sidney Sheldon.
- Certo... e música? Tá ouvindo o quê agora?
- Gosto de coisas que ninguém gosta, sabe? Baladinhas românticas tipo Norah Jones, Shanaia Twain, um pouco de Beatles, ah, essas coisas...
- Mas você procura coisas novas, vai atrás e tal ou não?
- Não, nem vou. Nem me ligo muito nessas coisas.
- Ah, tá... E o que te fez gostar de cultura, tipo escrever em um caderno de cultura?
- Ai, porque não gosto de política, acho um saco. E cultura é fácil, e dá pra falar com os artistas, gente famosa, sabe? É isso que me atrai, eu acho.
- Ok. Brigado. Valeu. Entramos em contato.
- Ah, brigada eu.
- Caraca, onde eu coloquei meu vidro de Lexotan, senhor Jesus, rápido!
Considerações
Ainda não consigo olhar para as coisas dela. Estão todas por aqui, espalhadas por cima de tudo. Engraçado como nada do que a gente quer esquecer não vai parar embaixo da cama ou sobre o armário. Não, elas ficam bem visíveis, tipo em cima da cômoda ou no tapete da sala. Saco.
Por que simplesmente não vão embora com o vento ou entram de uma vez por todas dentro do aspirador de pó? Por que insistem em se fazer valer, mostrando aquilo que já não tem mais razão de ser? Ficam por aqui, enroscando nos meus cabelos, roçando minhas pernas, cutucando minhas orelhas e beliscando minha bunda.
Poderia (mas jã não deveria ter?) enfiar tudo num saco e jogado no rio, com uma pedra amarrada na boca. Mas certamente ficaria com pena e me atiraria junto cheio de arrependimento e culpa. Vou ligar para ela. Mandar vir aqui e levar tudo embora. É dela, oras, que se vire como rumo que isso deve tomar. Comigo é que não pode ficar. Não aqui, assim, como testemunhas mudas de um crime sem motivo.
E vou ser taxativo. Talvez até providencie o carreto para ela, assim não tenho que me preocupar se irão se quebrar durante o transporte. Melhor já ir acondicionando nas caixas de copos de cristais da mamãe. Mas pode ser que molhem se eu deixar lá fora, então vou colocá-las todas dentro do armário. Antes um pano úmido para tirar o pó. Isso. Pronto. É. Até que não ficou de todo mal. Logo, logo evapora e acabou-se. De uma vez.
Por que simplesmente não vão embora com o vento ou entram de uma vez por todas dentro do aspirador de pó? Por que insistem em se fazer valer, mostrando aquilo que já não tem mais razão de ser? Ficam por aqui, enroscando nos meus cabelos, roçando minhas pernas, cutucando minhas orelhas e beliscando minha bunda.
Poderia (mas jã não deveria ter?) enfiar tudo num saco e jogado no rio, com uma pedra amarrada na boca. Mas certamente ficaria com pena e me atiraria junto cheio de arrependimento e culpa. Vou ligar para ela. Mandar vir aqui e levar tudo embora. É dela, oras, que se vire como rumo que isso deve tomar. Comigo é que não pode ficar. Não aqui, assim, como testemunhas mudas de um crime sem motivo.
E vou ser taxativo. Talvez até providencie o carreto para ela, assim não tenho que me preocupar se irão se quebrar durante o transporte. Melhor já ir acondicionando nas caixas de copos de cristais da mamãe. Mas pode ser que molhem se eu deixar lá fora, então vou colocá-las todas dentro do armário. Antes um pano úmido para tirar o pó. Isso. Pronto. É. Até que não ficou de todo mal. Logo, logo evapora e acabou-se. De uma vez.
sexta-feira, dezembro 09, 2005
A primeira coisa que eu faria seu fosse mulher...
... seria dar a xoxota para os meus amigos olharem.
Mas só olharem.
Mas só olharem.
segunda-feira, dezembro 05, 2005
Verdade 2 - A Missão
Neste final de semana, pude finalmente assistir a "9 Canções". O filme seria uma grande bobagem com ares de polêmica se não contivesse dois elementos fundamentais para a vida na Terra e um terceiro que tem atormentado minhas sinapses nesses tempos. Sexo e rock´n´roll são os dois primeiros. A verdade é o terceiro, que advém daqueles de uma maneira bem pouco sutil, praticamente explícita por assim dizer. E isso é bom. Muito bom.
Um dos grandes méritos de "9 Canções" e seu diretor, Michael Winterbottom, é trazer a, hã, "estética da pornografia", para um filme com alguma pretensão artística e um bom tino comercial conferido pela trilha sonora de bandas indie de grande expressão (?) lá fora, como Black Rebel Motorcycle Club, Von Bondies, Primal Scream, Franz Ferdinand entre outras. E fazer isso tudo com muita verdade.
A verdade do sexo. Os protagonistas fazem sexo de verdade. Não há cenas em penumbra, que revelam apenas curvas e nesgas de seios e bundas. Tampouco há o hipócrita nu frontal que as estrelas de Hollywood gostam de exibir em parcos segundos de pelos pubianos. Na tela, o que se vê não são ensaios de movimentos ou gemidos em falsete. Há um pau duro penetrando uma vagina. Há felação. Há cunilíngua. Há jogos eróticos. Há brinquedinhos. Há drogas. Há ejaculação. E tudo em close, para não haver dúvida. O que não há é fantasia, divagação ou opções. Winterbottom não dá isso para o espectador. Ele o joga num turbilhão de sentimento tão forte que dá até pra sentir o cheiro.
E tem o rock e sua verdade. Quando não fazem sexo, o casal protagonista vai a shows de uma boa safra de bandas. São apresentações ao vivo, no melhor esquema documental, sem interferência posterior. Os músicos estão no palco fazendo o que sabem e o público se entrega totalmente ao momento, sem ensaio ou prévia. Apenas uma câmera digital na mão e um microfone para captar o som, que se apresenta sujo, distorcido, tosco e maravilhosamente impreciso. Apenas rock´n´roll. Sem playback. Sem fingimento. Sem possibilidade de voltar atrás. Sem necessidade de fazer bonito. Sem pureza. Apenas rock´n´roll. E nós gostamos, pode ter certeza.
Mas há um quarto elemento, que corrobora definitivamente para que a verdade torne-se ainda mais escancarada: a Antárdita. O continente congelado é palco das incursões filosóficas de um dos protagonistas, que trabalha como analista de gelo (!). Nas planícies geladas e brancas que ele percorre não há espaço para nada além de verdade. A imensidão solitária e quieta do mar de gelo é tão sincera e peremptória que exerce sua razão sem deixar dúvidas.
Ao final, fica a sensação de que verdade ou a mentira não podem ser idealizadas ou definidas. Elas existem e ponto final. Estão alí, mas só as vê (e sente) quem realmente quer. Podem ser explícitas ou implícitas. Podem ser ao vivo ou em playback. Podem ser nas agitadas ruas de Londres ou na desolação gelada do extremo sul do planeta.
Ao final, não há mentiras nem verdades aqui. Só há música urbana.
Um dos grandes méritos de "9 Canções" e seu diretor, Michael Winterbottom, é trazer a, hã, "estética da pornografia", para um filme com alguma pretensão artística e um bom tino comercial conferido pela trilha sonora de bandas indie de grande expressão (?) lá fora, como Black Rebel Motorcycle Club, Von Bondies, Primal Scream, Franz Ferdinand entre outras. E fazer isso tudo com muita verdade.
A verdade do sexo. Os protagonistas fazem sexo de verdade. Não há cenas em penumbra, que revelam apenas curvas e nesgas de seios e bundas. Tampouco há o hipócrita nu frontal que as estrelas de Hollywood gostam de exibir em parcos segundos de pelos pubianos. Na tela, o que se vê não são ensaios de movimentos ou gemidos em falsete. Há um pau duro penetrando uma vagina. Há felação. Há cunilíngua. Há jogos eróticos. Há brinquedinhos. Há drogas. Há ejaculação. E tudo em close, para não haver dúvida. O que não há é fantasia, divagação ou opções. Winterbottom não dá isso para o espectador. Ele o joga num turbilhão de sentimento tão forte que dá até pra sentir o cheiro.
E tem o rock e sua verdade. Quando não fazem sexo, o casal protagonista vai a shows de uma boa safra de bandas. São apresentações ao vivo, no melhor esquema documental, sem interferência posterior. Os músicos estão no palco fazendo o que sabem e o público se entrega totalmente ao momento, sem ensaio ou prévia. Apenas uma câmera digital na mão e um microfone para captar o som, que se apresenta sujo, distorcido, tosco e maravilhosamente impreciso. Apenas rock´n´roll. Sem playback. Sem fingimento. Sem possibilidade de voltar atrás. Sem necessidade de fazer bonito. Sem pureza. Apenas rock´n´roll. E nós gostamos, pode ter certeza.
Mas há um quarto elemento, que corrobora definitivamente para que a verdade torne-se ainda mais escancarada: a Antárdita. O continente congelado é palco das incursões filosóficas de um dos protagonistas, que trabalha como analista de gelo (!). Nas planícies geladas e brancas que ele percorre não há espaço para nada além de verdade. A imensidão solitária e quieta do mar de gelo é tão sincera e peremptória que exerce sua razão sem deixar dúvidas.
Ao final, fica a sensação de que verdade ou a mentira não podem ser idealizadas ou definidas. Elas existem e ponto final. Estão alí, mas só as vê (e sente) quem realmente quer. Podem ser explícitas ou implícitas. Podem ser ao vivo ou em playback. Podem ser nas agitadas ruas de Londres ou na desolação gelada do extremo sul do planeta.
Ao final, não há mentiras nem verdades aqui. Só há música urbana.
Momento piada interna em uma tarde de domingo depois de várias Brahmas e tortinhas de limão
"A Dani é uma Lena de Itu"
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Das coisas que eu não entendo
Porque Pearl, da Janis Joplin, custa R$ 20 e o Ao Vivo do Daniel tá R$ 35?
segunda-feira, novembro 28, 2005
Verdade
Todo mundo que conheço já assistiu a "Closer". Muitos de tanto eu chatear. O filme é uma lição de vida para mim. Do começo ao fim, expõe de maneira corajosa e direta o que muitos outros gostam de romancear. E toca num ponto que parece ter se tornado obsessivo para a maioria das pessoas que conheço: a verdade.
Sim, a verdade. Aquela que deve ser nua e crua para fazer valer. A única suposição que todo jornalista que prima pela ética deve buscar (isso foi uma piada, desculpem...). Essa palavra que mete medo em tanta gente, que desarma/arma sorrisos, despedaça/conforta corações e liberta/aprisiona almas. A verdade. Nada mais que a verdade, somente a verdade, tipo filme norte-americano de tribunal.
Em "Closer", a urgência enlouquecedora pela verdade destrói relacionamentos que se diziam perfeitos. A mentira também, óbvio. Afinal, só existe a verdade se a mentira está por aí. Um não existe sem o outro, e ambos perambulam por entre os homens desde os primórdios.
O porquê mentimos não vem ao caso. O que sei é que sempre fui afeito a mentiras. Talvez por isso tenha me tornado jornalista: para contar histórias que não existem. Desnecessário dizer que isso me causou (e causa) muitos problemas. Mas o fato é que não demonizo a mentira como o senso comum gosta de pregar. Simplesmente me guio por uma única pergunta: preciso saber a verdade?
Vou dar um exemplo. Certa vez, saindo com uma garota no jardim da casa dela, resolvemos transar. Como não tinha carro, e ela estava com pressa, a coisa rolou ali mesmo, numa fração de calça abaixada e saia erguida. Terminada a peleja, fui para casa caminhando. Entretanto, no meio do caminho, notei que a camiseta que usava estava manchada com sangue na parte de baixo. Óbvio, a garota estava menstruada, mas não havia me dito nada. Ao chegar em casa, tirei a camiseta e enfiei na máquina de lavar junto com outras roupas. "Minha mãe não vai nem notar", pensei bobamente.
No dia seguinte, durante o almoço, ela tira a camisa da máquina e vê as manchas de sangue. Sem perder tempo, vira-se para mim e pergunta: "Gustavo, o que é isso?". Propositalmente, digo se ela quer saber a verdade ou apenas alguma explicação. "Fala a verdade", ela dispara. "Comi uma garota no jardim da casa dela ontem e ela estava menstruada. Aí fez isso aí", respondi. Meu pai quase engasgou com o brócolis, enquanto meu irmão riu baixinho. A expressão de minha mãe nesse instante guardo até hoje, junto com um "eu não acredito, você não tem jeito mesmo", ruborizada.
Conclusão: quer mesmo a verdade? Precisa dela? É tão importante assim? Ou há casos e casos? Se é relativa, então não é uma necessidade absoluta. E se não é absoluta, é discutível. E se é discutível, é uma opção, que posso ou não lançar mão.
Se na ocasião minha mãe pedisse apenas uma explicação, teria dito que se tratava de uma espinha que, quando apertada, sangrou e tive que usar a camiseta para limpar. Ela poderia não acreditar, mas ficaria satisfeita. Entretanto, optou pela versão legítima dos fatos, que a levou a um constrangimento desnecessário.
Em “Closer”, um dos personagens insiste para a namorada confesse que transou com outro quando estavam separados. Ela diz que não, que nunca rolou nada. Mas ele persiste, afirmando que não pode viver com alguém que mente e que quer saber tudo sobre o assunto. Ele sai e, quando volta, ela confessa que realmente havia transado com o sujeito, mas que preferia ele, seu namorado. Mas agora não o amava mais. O desgaste da busca pela verdade havia sido demais para ela. Saber se ela havia ou não transado com outro durante o período em que ficaram separados parecia mais importante para ele que o amor que supostamente sentia. Logo, não havia por que continuar a relação. No final, ele ainda a estapeia pelo que aconteceu.
É ilusão, portanto, pensar que a verdade liberta. Mas não defendo o uso indiscriminado e viciante da mentira. Acredito no bom senso. Acredito que algumas coisas não precisam ser elucidadas mais do que a aparência entrega. A busca incessante e louca pela verdade pode trazer conseqüências nefastas que poderiam muito bem ser evitadas.
A verdade, então, é nada mais que uma versão da realidade. Eu tenho a minha. Você tem a sua. E qual a certa? Quem vai se impor? Até onde está disposto a ir para satisfazer sua sede de verdade? Está realmente pronto para pagar esse preço? Eu confesso que não estou.
Sim, a verdade. Aquela que deve ser nua e crua para fazer valer. A única suposição que todo jornalista que prima pela ética deve buscar (isso foi uma piada, desculpem...). Essa palavra que mete medo em tanta gente, que desarma/arma sorrisos, despedaça/conforta corações e liberta/aprisiona almas. A verdade. Nada mais que a verdade, somente a verdade, tipo filme norte-americano de tribunal.
Em "Closer", a urgência enlouquecedora pela verdade destrói relacionamentos que se diziam perfeitos. A mentira também, óbvio. Afinal, só existe a verdade se a mentira está por aí. Um não existe sem o outro, e ambos perambulam por entre os homens desde os primórdios.
O porquê mentimos não vem ao caso. O que sei é que sempre fui afeito a mentiras. Talvez por isso tenha me tornado jornalista: para contar histórias que não existem. Desnecessário dizer que isso me causou (e causa) muitos problemas. Mas o fato é que não demonizo a mentira como o senso comum gosta de pregar. Simplesmente me guio por uma única pergunta: preciso saber a verdade?
Vou dar um exemplo. Certa vez, saindo com uma garota no jardim da casa dela, resolvemos transar. Como não tinha carro, e ela estava com pressa, a coisa rolou ali mesmo, numa fração de calça abaixada e saia erguida. Terminada a peleja, fui para casa caminhando. Entretanto, no meio do caminho, notei que a camiseta que usava estava manchada com sangue na parte de baixo. Óbvio, a garota estava menstruada, mas não havia me dito nada. Ao chegar em casa, tirei a camiseta e enfiei na máquina de lavar junto com outras roupas. "Minha mãe não vai nem notar", pensei bobamente.
No dia seguinte, durante o almoço, ela tira a camisa da máquina e vê as manchas de sangue. Sem perder tempo, vira-se para mim e pergunta: "Gustavo, o que é isso?". Propositalmente, digo se ela quer saber a verdade ou apenas alguma explicação. "Fala a verdade", ela dispara. "Comi uma garota no jardim da casa dela ontem e ela estava menstruada. Aí fez isso aí", respondi. Meu pai quase engasgou com o brócolis, enquanto meu irmão riu baixinho. A expressão de minha mãe nesse instante guardo até hoje, junto com um "eu não acredito, você não tem jeito mesmo", ruborizada.
Conclusão: quer mesmo a verdade? Precisa dela? É tão importante assim? Ou há casos e casos? Se é relativa, então não é uma necessidade absoluta. E se não é absoluta, é discutível. E se é discutível, é uma opção, que posso ou não lançar mão.
Se na ocasião minha mãe pedisse apenas uma explicação, teria dito que se tratava de uma espinha que, quando apertada, sangrou e tive que usar a camiseta para limpar. Ela poderia não acreditar, mas ficaria satisfeita. Entretanto, optou pela versão legítima dos fatos, que a levou a um constrangimento desnecessário.
Em “Closer”, um dos personagens insiste para a namorada confesse que transou com outro quando estavam separados. Ela diz que não, que nunca rolou nada. Mas ele persiste, afirmando que não pode viver com alguém que mente e que quer saber tudo sobre o assunto. Ele sai e, quando volta, ela confessa que realmente havia transado com o sujeito, mas que preferia ele, seu namorado. Mas agora não o amava mais. O desgaste da busca pela verdade havia sido demais para ela. Saber se ela havia ou não transado com outro durante o período em que ficaram separados parecia mais importante para ele que o amor que supostamente sentia. Logo, não havia por que continuar a relação. No final, ele ainda a estapeia pelo que aconteceu.
É ilusão, portanto, pensar que a verdade liberta. Mas não defendo o uso indiscriminado e viciante da mentira. Acredito no bom senso. Acredito que algumas coisas não precisam ser elucidadas mais do que a aparência entrega. A busca incessante e louca pela verdade pode trazer conseqüências nefastas que poderiam muito bem ser evitadas.
A verdade, então, é nada mais que uma versão da realidade. Eu tenho a minha. Você tem a sua. E qual a certa? Quem vai se impor? Até onde está disposto a ir para satisfazer sua sede de verdade? Está realmente pronto para pagar esse preço? Eu confesso que não estou.
sexta-feira, novembro 25, 2005
A vida tem mais fúria que som
Certa vez, o Marcelo Camelo, vocalista do Los Hermanos, disse que o maior problema de se comparar a vida com os filmes é quando, nestes, os créditos sobem no final. Quer dizer: eles tem um final. Independente de felizes ou tristes, eles terminam. Sempre terminam. A vida não. Só acaba, lógico, quando se morre. Mas até lá...
A colocação do barbudo faz sentido. As histórias contadas na telona tem momento para acabar. Os créditos sobem e os personagens e situações ficam congelados naquele último frame. Mas na vida, não. Ela continua a partir de onde parou. E isso é mais complicado do que se imagina.
E tem ainda as trilhas sonoras. O quê é um filme sem uma bela trilha sonora? Até filmes iranianos possuem musiquinha no fundo. Mas a vida não. A vida não possui trilha sonora. E isso é mais complicado do que se imagina.
Por exemplo:
- Quando você acaba de levar um pé-na-bunda, não ouve "Blower´s Daugther", do Damien Rice
- Quando está deitado na cama, numa noite de domingo, com a pessoa sapateando nos seus pensamentos, não ouve "Bed of Roses", do Bon Jovi
- Quando sai do trabalho puto, depois de ter brigado com seu chefe, o rádio do carro não toca "Search and Destroy", dos Stooges
- Quando você está em frente do espelho se arrumando para a noite e dá aquela última olhada de corpo inteiro, não está no ar "Rock and Roll Star", do Oasis
- Quando encontra alguém que sente que será especial, não ecoa os primeiros acordes de "Still got a Blue", do Gary Moore
- Quando dá o primeiro pega e começa a viajar, não ouve "Space Oddity, do David Bowie
- Quando briga com seus pais e sai batendo a porta, não toca "Mama said", do Metallica
- Quando consegue finalmente tirar 5 em matemática, não toca o tema de Rocky, Um Lutador
- Quando senta para fazer a prova do vestibula, não se ouve "Final Countdown", do Europe
- Quando se desce a serra para o litoral, o rádio não toca "Proud Mary", do Creedence
- Quando você fracassa em algum projeto, não ouve "Let it Be", dos Beatles
- Quando está se preparando para fazer sexo, não ouve "Let´s get on", do Marvin Gaye
- Quando se está fazendo sexo, a última coisa que se ouve é "Je t´aime moi non plus", do Serge Gainsbourg
- E quando o fim é iminente, duvido que se ouça alguma coisa
A colocação do barbudo faz sentido. As histórias contadas na telona tem momento para acabar. Os créditos sobem e os personagens e situações ficam congelados naquele último frame. Mas na vida, não. Ela continua a partir de onde parou. E isso é mais complicado do que se imagina.
E tem ainda as trilhas sonoras. O quê é um filme sem uma bela trilha sonora? Até filmes iranianos possuem musiquinha no fundo. Mas a vida não. A vida não possui trilha sonora. E isso é mais complicado do que se imagina.
Por exemplo:
- Quando você acaba de levar um pé-na-bunda, não ouve "Blower´s Daugther", do Damien Rice
- Quando está deitado na cama, numa noite de domingo, com a pessoa sapateando nos seus pensamentos, não ouve "Bed of Roses", do Bon Jovi
- Quando sai do trabalho puto, depois de ter brigado com seu chefe, o rádio do carro não toca "Search and Destroy", dos Stooges
- Quando você está em frente do espelho se arrumando para a noite e dá aquela última olhada de corpo inteiro, não está no ar "Rock and Roll Star", do Oasis
- Quando encontra alguém que sente que será especial, não ecoa os primeiros acordes de "Still got a Blue", do Gary Moore
- Quando dá o primeiro pega e começa a viajar, não ouve "Space Oddity, do David Bowie
- Quando briga com seus pais e sai batendo a porta, não toca "Mama said", do Metallica
- Quando consegue finalmente tirar 5 em matemática, não toca o tema de Rocky, Um Lutador
- Quando senta para fazer a prova do vestibula, não se ouve "Final Countdown", do Europe
- Quando se desce a serra para o litoral, o rádio não toca "Proud Mary", do Creedence
- Quando você fracassa em algum projeto, não ouve "Let it Be", dos Beatles
- Quando está se preparando para fazer sexo, não ouve "Let´s get on", do Marvin Gaye
- Quando se está fazendo sexo, a última coisa que se ouve é "Je t´aime moi non plus", do Serge Gainsbourg
- E quando o fim é iminente, duvido que se ouça alguma coisa
terça-feira, novembro 22, 2005
quinta-feira, novembro 17, 2005
Meu blog não goste de eu
Não consigo mais postar fotos.
Não consigo mais dar pitacos no sítio alheio.
Não sei como resolver isso.
Não sei se caso ou se compro uma bicicleta.
Não consigo mais dar pitacos no sítio alheio.
Não sei como resolver isso.
Não sei se caso ou se compro uma bicicleta.
quarta-feira, novembro 16, 2005
Eloqüência
15 minutos de conversa depois
- Você é gago?
- Não, sou disfluente.
- Como assim?
- Tenho disfluência.
- Não é a mesma coisa?
- Não. Se fosse, não teria outro nome.
- Ai, só perguntei. Perguntar não ofende.
- Perguntar, não. Estupidez, sim.
- Nossa, como você é grosso. Por isso é gago.
- Não sou gago. Sou disfluente.
- É a mesma coisa.
- ...
- Você é gago?
- Não, sou disfluente.
- Como assim?
- Tenho disfluência.
- Não é a mesma coisa?
- Não. Se fosse, não teria outro nome.
- Ai, só perguntei. Perguntar não ofende.
- Perguntar, não. Estupidez, sim.
- Nossa, como você é grosso. Por isso é gago.
- Não sou gago. Sou disfluente.
- É a mesma coisa.
- ...
Inúteis
Existem músicas que fazem sentido para alguém. Outras, que não fazem sentido para ninguém. Mas "Inútil", do Ultraje a Rigor, faz sentido para quase todo mundo. No momento, elenco essas personas de minha seara
"A gente não sabemos escolher presidente" - para o meu pai, coitado
"A gente não sabemos tomar conta da gente" - para mim, sem sombra de dúvida
"Tem gringo pensando que nóis é indigente" - Maryjane, que desconta o contracheque direto de Montreal
"A gente pede grana e não consegue pagar" - eu de novo, putz...
"A gente faz música e não consegue gravar" - meu chapa Rodrigo Cardoso, cover de 150kg do Jim Morisson
"A gente escreve livro e não consegue publicar" - nem precisa falar que é o Bia, né?
"A gente faz carro e não sabe guiar" - a Nunu, meu love
"A gente joga bola e não consegue ganhar" - Denitcho e seu joelho/tornozelo bichado
"A gente não sabemos escolher presidente" - para o meu pai, coitado
"A gente não sabemos tomar conta da gente" - para mim, sem sombra de dúvida
"Tem gringo pensando que nóis é indigente" - Maryjane, que desconta o contracheque direto de Montreal
"A gente pede grana e não consegue pagar" - eu de novo, putz...
"A gente faz música e não consegue gravar" - meu chapa Rodrigo Cardoso, cover de 150kg do Jim Morisson
"A gente escreve livro e não consegue publicar" - nem precisa falar que é o Bia, né?
"A gente faz carro e não sabe guiar" - a Nunu, meu love
"A gente joga bola e não consegue ganhar" - Denitcho e seu joelho/tornozelo bichado
quinta-feira, novembro 10, 2005
terça-feira, novembro 08, 2005
Porque vou praticar orkuticídio
O Álvaro Pereira Júnior é um mala. Um chato, que adora criar polêmicas pra molecada do Folhateen, onde é colunista. O sujeito tem quase 40 anos de idade e gosta de provocar garotos de 15. Não à toa, é editor-chefe do Fantástico, a coisa mais estúpida da TV brasileira em seu horário.
Mas desta vez preciso fazer minhas as palavras dele. Em sua coluna desta segunda-feira, escreve juninho o seguinte:
Já pensou se o Orkut servisse para alguma coisa? Se ele não fosse só nostalgia, fofoca e sacanagem? Se tivesse um uso prático bem definido?
O texto, chamado "O Orkut que deu certo", é sobre o MySpace.com, comunidade que, segundo Álvaro, é bem mais útil que a criada pelo Google. E encerra de forma magistral, bem a seu estilo:
Assim como o açaí na tigela e a Scheila Carvalho, o Orkut é um fenômeno estritamente brasileiro. Importante, é claro, mas de alcance paroquial.
Quando começou, o Orkut era legal. Servia para reencontrar muita gente que, por um motivo ou outro, havia se perdido pelas encruzilhadas da vida. E aí dá-lhe scrap, mensagem, troca de e-mail, telefone, encontros (orkontros, para os exagerados), enfim. Mas aí a coisa parou. Simplesmente não rendeu mais fruto algum.
O porquê disso é simples. Se tais contatos foram perdidos, era porque realmente não eram importantes. Se fossem, não teriam se perdido. E passada a euforia inicial, o que era para ser algo saudável, tornou-se nocivo, para não dizer bobo.
Restou, claro, a putaria. Tornou-se mais um canal onde gente feia e travada tenta comer alguém sem precisar botar a cara pra bater. Outro meio de dar "escapadinhas", arrumar affairs, chifrar namorada, boicotar namorado. Putas comerçaram a a anunciar seus servicinhos em seções específicas ou em páginas próprias. Grupos de swing, ménage, cornos mansos e vagabas em geral não param de aumentar.
Restou também a faceta cruel, estúpida e irrelevante - por isso mesmo a de maior vulto - do ser humano, traduzida em comunidades preconceituosas e de mal gosto. Contra negros, mulheres, judeus, nordestinos, homossexuais, pobres, enfim, a velha ignorância de sempre, só que com um alcance muito maior.
E o que é pior: os spams, correntes e piadinhas, antes restritas aos e-mails, invadiram os scraps, dando novamente aquele falsa sensação de que alguém realmente se importa com alguém. Como se um recadinho do tipo "Fala, sumido... manda notícias" fosse realmente sincero. Basta entrar na página de scraps de quem mandou para vereficar que a mesma pergunta foi feita para todo mundo.
Então, como não sou feio, travado e não faço questão de participar de nada que seja virtual, tô dando linha. Saindo fora. Ralando peito. Pegando o caminho da roça. Tomando rumo. Indo embora, enfim.
Mas desta vez preciso fazer minhas as palavras dele. Em sua coluna desta segunda-feira, escreve juninho o seguinte:
Já pensou se o Orkut servisse para alguma coisa? Se ele não fosse só nostalgia, fofoca e sacanagem? Se tivesse um uso prático bem definido?
O texto, chamado "O Orkut que deu certo", é sobre o MySpace.com, comunidade que, segundo Álvaro, é bem mais útil que a criada pelo Google. E encerra de forma magistral, bem a seu estilo:
Assim como o açaí na tigela e a Scheila Carvalho, o Orkut é um fenômeno estritamente brasileiro. Importante, é claro, mas de alcance paroquial.
Quando começou, o Orkut era legal. Servia para reencontrar muita gente que, por um motivo ou outro, havia se perdido pelas encruzilhadas da vida. E aí dá-lhe scrap, mensagem, troca de e-mail, telefone, encontros (orkontros, para os exagerados), enfim. Mas aí a coisa parou. Simplesmente não rendeu mais fruto algum.
O porquê disso é simples. Se tais contatos foram perdidos, era porque realmente não eram importantes. Se fossem, não teriam se perdido. E passada a euforia inicial, o que era para ser algo saudável, tornou-se nocivo, para não dizer bobo.
Restou, claro, a putaria. Tornou-se mais um canal onde gente feia e travada tenta comer alguém sem precisar botar a cara pra bater. Outro meio de dar "escapadinhas", arrumar affairs, chifrar namorada, boicotar namorado. Putas comerçaram a a anunciar seus servicinhos em seções específicas ou em páginas próprias. Grupos de swing, ménage, cornos mansos e vagabas em geral não param de aumentar.
Restou também a faceta cruel, estúpida e irrelevante - por isso mesmo a de maior vulto - do ser humano, traduzida em comunidades preconceituosas e de mal gosto. Contra negros, mulheres, judeus, nordestinos, homossexuais, pobres, enfim, a velha ignorância de sempre, só que com um alcance muito maior.
E o que é pior: os spams, correntes e piadinhas, antes restritas aos e-mails, invadiram os scraps, dando novamente aquele falsa sensação de que alguém realmente se importa com alguém. Como se um recadinho do tipo "Fala, sumido... manda notícias" fosse realmente sincero. Basta entrar na página de scraps de quem mandou para vereficar que a mesma pergunta foi feita para todo mundo.
Então, como não sou feio, travado e não faço questão de participar de nada que seja virtual, tô dando linha. Saindo fora. Ralando peito. Pegando o caminho da roça. Tomando rumo. Indo embora, enfim.
quinta-feira, novembro 03, 2005
Eu odeio a ABKCO
E quem diabos é a ABKCO?
A ABKCO é a gravadora que desde 1986 detém parte do catálogo dos Rolling Stones. Mesmo a maior parte sendo de coletâneas (e eles tem muitas), é dela os direitos de lançamento de discos seminais na história da música, como "Let it Bleed" (1969), "Beggars Banquet" (1968), "Their Satanic Majesties Request" (1967) e "Between the Buttons" (1967).
Ou seja: simplesmente a melhor fase do grupo, essencial para quem é fã e mais ainda para quem quer entender um pouco de música.
Mas você compra qualquer um deles. Bota no aparelho de som. E - como o Guto precisamente relatou - como qualquer pessoa normal, você vai fuçar no encarte. E qual não é a surpresa quando, só para começar, não existe a data de lançamento do disco. Sim, não há qualquer menção de quando a gravação foi feita. Para o ouvinte eclético (essa raça ignóbil que gosta de qualquer coisa), isso não importa. Mas é preciso admitir pelo menos a possibilidade que existe gente com um mínimo de curiosidade e vontade de saber porquê a partir da segunda metade dos anos 70 os Stones só fizeram merda. E para isso, é preciso ter em mãos pelo menos o ano em que os trabalhos foram feitos.
Mas não tem. Não tem nada. Nem menção. Sequer uma indicação de década, época ou era.
Nada.
Então o sujeito que comprou o disco, e quer saber em que ano aqueles batuques satânicos de "Sympathy for the Devil" foram gravado, precisa recorrer a Internet. E estamos falando apenas de uma mísera data. O que dirá de informações mais técnicas como os músicos que gravaram as canções, o estúdio onde foi feito o registro, os técnicos e engenheiros de som e mixagem, o artista da capa, enfim, dados que podem passar batido para o ouvinte medíocre, mas que são importantes para quem gosta não apenas da banda em questão, mas que entende a música como algo além de ritmo feito para chacoalhar o corpo.
Quanto às letras, é óbvio que nenhum deles traz. Os encartes se resumem a quatro páginas, contando com a a capa e contracapa. Novamente, para entender o recado que Jagger manda em "You Can´t Always Get What You Want", é preciso recorrer a Internet.
Mas isso você não encontra nos CDs remasterizados digitalmente pela ABKCO. Ah, sim, consta a ficha técnica da equipe que remasterizou as bolachas. E eu lá quero saber o nome de quem agora, depois de tudo pronto, de décadas de história, simplesmente apertou alguns botões e "limpou" o som?
O que a ABKCO faz mesmo questão de estampar em todos os CDs é uma espécie de auto-congratulação - em inglês, evidentemente - sobre a proeza e privilégio de poder lançar os discos dos Stones. É muita cara de pau e desrespeito não apenas para com o fã, mas o consumidor em geral, que compra um produto e leva outro.
E o pior: a ABKCO detêm os direitos também de Phil Spector, Sam Cooke, Marianne Faithfull e The Animals.
É ou não é pra chorar?
Estamos nas mãos desses picaretas, como bem colocou o Bia, ou podemos fazer alguma coisa?
A ABKCO é a gravadora que desde 1986 detém parte do catálogo dos Rolling Stones. Mesmo a maior parte sendo de coletâneas (e eles tem muitas), é dela os direitos de lançamento de discos seminais na história da música, como "Let it Bleed" (1969), "Beggars Banquet" (1968), "Their Satanic Majesties Request" (1967) e "Between the Buttons" (1967).
Ou seja: simplesmente a melhor fase do grupo, essencial para quem é fã e mais ainda para quem quer entender um pouco de música.
Mas você compra qualquer um deles. Bota no aparelho de som. E - como o Guto precisamente relatou - como qualquer pessoa normal, você vai fuçar no encarte. E qual não é a surpresa quando, só para começar, não existe a data de lançamento do disco. Sim, não há qualquer menção de quando a gravação foi feita. Para o ouvinte eclético (essa raça ignóbil que gosta de qualquer coisa), isso não importa. Mas é preciso admitir pelo menos a possibilidade que existe gente com um mínimo de curiosidade e vontade de saber porquê a partir da segunda metade dos anos 70 os Stones só fizeram merda. E para isso, é preciso ter em mãos pelo menos o ano em que os trabalhos foram feitos.
Mas não tem. Não tem nada. Nem menção. Sequer uma indicação de década, época ou era.
Nada.
Então o sujeito que comprou o disco, e quer saber em que ano aqueles batuques satânicos de "Sympathy for the Devil" foram gravado, precisa recorrer a Internet. E estamos falando apenas de uma mísera data. O que dirá de informações mais técnicas como os músicos que gravaram as canções, o estúdio onde foi feito o registro, os técnicos e engenheiros de som e mixagem, o artista da capa, enfim, dados que podem passar batido para o ouvinte medíocre, mas que são importantes para quem gosta não apenas da banda em questão, mas que entende a música como algo além de ritmo feito para chacoalhar o corpo.
Quanto às letras, é óbvio que nenhum deles traz. Os encartes se resumem a quatro páginas, contando com a a capa e contracapa. Novamente, para entender o recado que Jagger manda em "You Can´t Always Get What You Want", é preciso recorrer a Internet.
Mas isso você não encontra nos CDs remasterizados digitalmente pela ABKCO. Ah, sim, consta a ficha técnica da equipe que remasterizou as bolachas. E eu lá quero saber o nome de quem agora, depois de tudo pronto, de décadas de história, simplesmente apertou alguns botões e "limpou" o som?
O que a ABKCO faz mesmo questão de estampar em todos os CDs é uma espécie de auto-congratulação - em inglês, evidentemente - sobre a proeza e privilégio de poder lançar os discos dos Stones. É muita cara de pau e desrespeito não apenas para com o fã, mas o consumidor em geral, que compra um produto e leva outro.
E o pior: a ABKCO detêm os direitos também de Phil Spector, Sam Cooke, Marianne Faithfull e The Animals.
É ou não é pra chorar?
Estamos nas mãos desses picaretas, como bem colocou o Bia, ou podemos fazer alguma coisa?
Mineirices na roça
Crônicas de redação - II
- Repórter, vem aqui um pouco.
- Fala, editor.
- O quê você quis dizer com "O Estado vai obrigar a cidade a cumprir a lei"?
- Tá errado?
- Bom, até onde sei, o Estado não obriga cidade alguma a fazer nada. Muito menos cumprir lei.
- Ah, sei lá. Eu só escrevo o que me falam.
- E não checa pra ver se tá certo?
- E precisa?
- É bom, né? (risinho sarcástico)
- Ixi... se for fazer isso, fico aqui o dia todo...
- Ah, entendi. Ok. Valeu. (olhar bem aberto, olhando para o nada, virando para o monitor)
- Beleza. Precisando, é só perguntar. (sai saltitante)
- Fala, editor.
- O quê você quis dizer com "O Estado vai obrigar a cidade a cumprir a lei"?
- Tá errado?
- Bom, até onde sei, o Estado não obriga cidade alguma a fazer nada. Muito menos cumprir lei.
- Ah, sei lá. Eu só escrevo o que me falam.
- E não checa pra ver se tá certo?
- E precisa?
- É bom, né? (risinho sarcástico)
- Ixi... se for fazer isso, fico aqui o dia todo...
- Ah, entendi. Ok. Valeu. (olhar bem aberto, olhando para o nada, virando para o monitor)
- Beleza. Precisando, é só perguntar. (sai saltitante)
Para alguém entender
Look for me!
Cruisin down the westside - high, way
Doing what we like to do - our, way
Eyes behind shades, this necklace the reasonall of my dates been blind dates
But today, I got my thoroughest girl wit me
I'm mashin the gas, she's grabbin the wheel, it's true to the heart
She rides with me - the new Bobby and Whitney
Only time we don't speak is during "Sex and the City"
She gets Carrie fever, but soon as the show is over
She's right back to being my soldier
Cuz mami's a rider, and I'm a roller
Put us together, how they gon' stop both us?
What ever she lacks, I'm right over her shoulder
When I'm off track mami is keepin me focused
So let's, lock this down like it's supposed to be
The '03 Bonnie and Clyde, Hov' and B
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
The problem is, you dudes treat the one that you lovin
with the same respect that you treat the one that you humpin
Now they 'bout nothin - if ever you mad about somethinIt won't be that; oh no it won't be that
I don't be at, places where we comfy at
With no be-atch; oh no you won't see that
And no, I ain't perfect - nobody walkin this earth's surface is
But girlfriend, work with the kidI keep you workin at Kermain, Birkin bag
Manolo Blahnik Timbs, aviator lens 600 drops, Mercedes Benz
The only time you wear Burberry to swim
And I don't have to worry, only worry is him
She do anything necessary for him
And I do anything necessary for herso don't let the necessary occur, yep!
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
If I was your girlfried I'll be there for you, if somebody hurts you
Even if it's somebody takes my place
Yeah-hee (break it down for 'em)
Sometimes I trip on how happy we could be
And so I put this on my life
Nobody or nothing will ever come between us
And I promise I'll give my life and all of my trust if you was my boyfriend
Put this on my life
The air that I breathe in, all that I believe in
I promise I'll give my life my love and my trust if you was my boyfriend
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
Cruisin down the westside - high, way
Doing what we like to do - our, way
Eyes behind shades, this necklace the reasonall of my dates been blind dates
But today, I got my thoroughest girl wit me
I'm mashin the gas, she's grabbin the wheel, it's true to the heart
She rides with me - the new Bobby and Whitney
Only time we don't speak is during "Sex and the City"
She gets Carrie fever, but soon as the show is over
She's right back to being my soldier
Cuz mami's a rider, and I'm a roller
Put us together, how they gon' stop both us?
What ever she lacks, I'm right over her shoulder
When I'm off track mami is keepin me focused
So let's, lock this down like it's supposed to be
The '03 Bonnie and Clyde, Hov' and B
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
The problem is, you dudes treat the one that you lovin
with the same respect that you treat the one that you humpin
Now they 'bout nothin - if ever you mad about somethinIt won't be that; oh no it won't be that
I don't be at, places where we comfy at
With no be-atch; oh no you won't see that
And no, I ain't perfect - nobody walkin this earth's surface is
But girlfriend, work with the kidI keep you workin at Kermain, Birkin bag
Manolo Blahnik Timbs, aviator lens 600 drops, Mercedes Benz
The only time you wear Burberry to swim
And I don't have to worry, only worry is him
She do anything necessary for him
And I do anything necessary for herso don't let the necessary occur, yep!
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
If I was your girlfried I'll be there for you, if somebody hurts you
Even if it's somebody takes my place
Yeah-hee (break it down for 'em)
Sometimes I trip on how happy we could be
And so I put this on my life
Nobody or nothing will ever come between us
And I promise I'll give my life and all of my trust if you was my boyfriend
Put this on my life
The air that I breathe in, all that I believe in
I promise I'll give my life my love and my trust if you was my boyfriend
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
All I need in this life of sin, is me and my girlfriend.
Down to ride 'til the very end, it's me and my boyfriend.
domingo, outubro 30, 2005
sexta-feira, outubro 28, 2005
Crônicas de redação - I
- Putz, que beleza. São 19h e já tô acabando aqui. Vou aproveitar que de quarta-feira o cinema é mais barato e pegar uma sessãozinha.
- Ô, filhão, tem que adiantar a edição desses suplementos ainda hoje, hein? Sexta-feira é feriado e vamos adiantar a programação.
- Eita... bom, pelo menos, saindo umas 21h dá pra passar na locadora e pegar uns filmes.
- Ai, rapaz... você viu quem fez as matérias dos suplementos essa semana?
- Não.
- A repórter nova.
- E...?
- Tu ainda não viu o texto dela, né? Acho que vai dar trabalho...
- Ai, caralho... deixa eu consultar a programação da HBO aqui. Hum, vai passar "Cães de Aluguel" meia-noite. Legal, bicho...
- Alguém sabe onde foi parar o Almeida?
- Ele falou que tava passando mal e precisou dar uma saída. Opa, peraí que é ele aqui no telefone.
- E aí?
- Era ele. Da casa dele. Disse que pegou uma virose e não volta mais hoje.
- Putz, tu vai ter que pegar o trampo dele, então.
- Mas essa merda tá pela metade ainda!
- Ah, bicho, que cê quer que eu faça? Alguém tem que fazer.
- Puta merda. Tô vendo que vou sair no lucro se conseguir ter oito horas de sono...
- Ô, filhão, tem que adiantar a edição desses suplementos ainda hoje, hein? Sexta-feira é feriado e vamos adiantar a programação.
- Eita... bom, pelo menos, saindo umas 21h dá pra passar na locadora e pegar uns filmes.
- Ai, rapaz... você viu quem fez as matérias dos suplementos essa semana?
- Não.
- A repórter nova.
- E...?
- Tu ainda não viu o texto dela, né? Acho que vai dar trabalho...
- Ai, caralho... deixa eu consultar a programação da HBO aqui. Hum, vai passar "Cães de Aluguel" meia-noite. Legal, bicho...
- Alguém sabe onde foi parar o Almeida?
- Ele falou que tava passando mal e precisou dar uma saída. Opa, peraí que é ele aqui no telefone.
- E aí?
- Era ele. Da casa dele. Disse que pegou uma virose e não volta mais hoje.
- Putz, tu vai ter que pegar o trampo dele, então.
- Mas essa merda tá pela metade ainda!
- Ah, bicho, que cê quer que eu faça? Alguém tem que fazer.
- Puta merda. Tô vendo que vou sair no lucro se conseguir ter oito horas de sono...
quinta-feira, outubro 27, 2005
Mamas & Papas
O Bia vai ser pai.
A Karen vai ser mãe.
E a blogosfera inteira pode apadrinhar.
Quem tá dentro?
A Karen vai ser mãe.
E a blogosfera inteira pode apadrinhar.
Quem tá dentro?
sábado, outubro 22, 2005
Eu também matei o Bia
- Mestre?
- Sim, pequeno Padawan. O momento chegou. Dissertaste sobre infinita sabedoria da prosa marginal e lírica de Lou Reed. Resfolegaste tua juventude entre coxas suadas de fêmeas despudoras. Desbundaste em orgias gastronômicas em nome de Baco. Devoraste os mistérios infindáveis de minhas palavras impressas em minha novela marrom. Praticaste o título na penumbra e na claridade. Embrenhaste na selva onírica e selvagem de Truffaut, Kubrick e Hitchcock. Penaste em decorar o verbo e particípio futuro da ignorância presente no coração dos homens. Tornaste perdulário com fanfarronices musicais, literais e audiovisuais. Pediste para ir embora enquanto todos se regozijavam da própria sorte. Influiste em processos ilícito para favorecer os mais próximos, mesmo sabendo do preço a ser pago. Conquistaste a alma cândida e inexpugnável da preponderância. Topaste com o infinito e fizeste dele um lar de aço e acalento. Exumiste tua febre de amor e paixão em pálidas nuvens de palavras. Correste para o horizonte como se tua existência disso dependesse. Arrancaste o mármore da infidelidade dos atos divinos das mãos trêmulas do tempo. Contaste os dias e enguliste a ostra que morre antes do sol se pôr. Deitaste com o mar enquanto este ainda era um infante. Perambulaste pelas zonas do pensamento idílico sob pés alados de amadurecimento tardio. Vieste a mim tal o homem nasce. Agora parte para a guerra com a couraça dos destemidos e insanos espartanos.
- Estás pronto, mestre?
- Sempre. No alto dos meus 35 outonos, não tenho mesmo mais o que fazer nessa porra de existência, a não ser entupir meu rabo com conhaque barato e punhetar assistindo a velhas chanchadas da Atlântida. Anda logo, moleque do caralho.
- Então recebe minha espada em teu ventre.
* Tchuft*
- Aaaaaaaahhh.... Fia da puta... gira o cabo para o ar entrar, senão vai dar uma hemorragia, porra! Me mata logo, caralho...
- Tô tentando, cacete, mas a lâmina prendeu. Provavelmente numa dessas enormes pedras de rim que tu tem. Velho de merda...
- Aaaaarrrhhhggg... cacete, tá começando a doer. Tira essa merda da minha barriga e corta meu pescoço
- Toma.
*Tuc*
- Aaaaaai! Não cortou, caralho. Essa merda não tá afiada! Mas como tu é idiota, puta discípulo burro e incompetente que eu fui arrumar...
- Claro que tá afiada, seu babão. É que essa carcaça de elefante velho tua não deixa corta, porra. Já sei, vou meter essa pedra na sua cabeça.
- Nossa, morrer de pedrada. Não acredito que vou morrer com uma pedrada na fuça... puta merda...
*Toc*
- Beu dariz! Beu dariz! Vilho da buta! Queprou o beu dariz! Dão bára de zangrar, borra...
- Ô bicho ruim de matar, credo. Vou ter que arrumar alguma outra coisa. Deixa ver... hum... ah, filhão, fica se esvaindo em sangue aí que é o melhor que tu faz, vai. Eu tou sair fora. Preciso fechar a edição ainda.
- Izo, izo, bai me deijar agui com a borra do dariz zangrando, a parriga aperta e o bescozo vudido? Badawan de merda... Aaaaaaarrrghhh... aaaaarrrgghhh...
- Hum... acho que morreu. De uma vez. É isso. Bão, vou pegar o White Album e o Rock´n´roll Circus. Talvez alguns do Wilco e o quadro do Velvet. O conhaque deixo pro Denão e os tubos de KY pra Carol. É isso. Morreu, filhão.
- Sim, pequeno Padawan. O momento chegou. Dissertaste sobre infinita sabedoria da prosa marginal e lírica de Lou Reed. Resfolegaste tua juventude entre coxas suadas de fêmeas despudoras. Desbundaste em orgias gastronômicas em nome de Baco. Devoraste os mistérios infindáveis de minhas palavras impressas em minha novela marrom. Praticaste o título na penumbra e na claridade. Embrenhaste na selva onírica e selvagem de Truffaut, Kubrick e Hitchcock. Penaste em decorar o verbo e particípio futuro da ignorância presente no coração dos homens. Tornaste perdulário com fanfarronices musicais, literais e audiovisuais. Pediste para ir embora enquanto todos se regozijavam da própria sorte. Influiste em processos ilícito para favorecer os mais próximos, mesmo sabendo do preço a ser pago. Conquistaste a alma cândida e inexpugnável da preponderância. Topaste com o infinito e fizeste dele um lar de aço e acalento. Exumiste tua febre de amor e paixão em pálidas nuvens de palavras. Correste para o horizonte como se tua existência disso dependesse. Arrancaste o mármore da infidelidade dos atos divinos das mãos trêmulas do tempo. Contaste os dias e enguliste a ostra que morre antes do sol se pôr. Deitaste com o mar enquanto este ainda era um infante. Perambulaste pelas zonas do pensamento idílico sob pés alados de amadurecimento tardio. Vieste a mim tal o homem nasce. Agora parte para a guerra com a couraça dos destemidos e insanos espartanos.
- Estás pronto, mestre?
- Sempre. No alto dos meus 35 outonos, não tenho mesmo mais o que fazer nessa porra de existência, a não ser entupir meu rabo com conhaque barato e punhetar assistindo a velhas chanchadas da Atlântida. Anda logo, moleque do caralho.
- Então recebe minha espada em teu ventre.
* Tchuft*
- Aaaaaaaahhh.... Fia da puta... gira o cabo para o ar entrar, senão vai dar uma hemorragia, porra! Me mata logo, caralho...
- Tô tentando, cacete, mas a lâmina prendeu. Provavelmente numa dessas enormes pedras de rim que tu tem. Velho de merda...
- Aaaaarrrhhhggg... cacete, tá começando a doer. Tira essa merda da minha barriga e corta meu pescoço
- Toma.
*Tuc*
- Aaaaaai! Não cortou, caralho. Essa merda não tá afiada! Mas como tu é idiota, puta discípulo burro e incompetente que eu fui arrumar...
- Claro que tá afiada, seu babão. É que essa carcaça de elefante velho tua não deixa corta, porra. Já sei, vou meter essa pedra na sua cabeça.
- Nossa, morrer de pedrada. Não acredito que vou morrer com uma pedrada na fuça... puta merda...
*Toc*
- Beu dariz! Beu dariz! Vilho da buta! Queprou o beu dariz! Dão bára de zangrar, borra...
- Ô bicho ruim de matar, credo. Vou ter que arrumar alguma outra coisa. Deixa ver... hum... ah, filhão, fica se esvaindo em sangue aí que é o melhor que tu faz, vai. Eu tou sair fora. Preciso fechar a edição ainda.
- Izo, izo, bai me deijar agui com a borra do dariz zangrando, a parriga aperta e o bescozo vudido? Badawan de merda... Aaaaaaarrrghhh... aaaaarrrgghhh...
- Hum... acho que morreu. De uma vez. É isso. Bão, vou pegar o White Album e o Rock´n´roll Circus. Talvez alguns do Wilco e o quadro do Velvet. O conhaque deixo pro Denão e os tubos de KY pra Carol. É isso. Morreu, filhão.
quarta-feira, outubro 19, 2005
Holocausto
A batalha foi árdua. Em muitos momentos, pensei mesmo em desistir, deixando para outros a abnegada tarefa de colocar Luiz Henrique Biajoni e seu famigerado Sexo Anal em um jornal.
Mas lá está. Sem um vírgula fora do lugar.
Agora sem falsa modéstia: quantas pessoas vocês conhecem que estampam um título como esse na capa de um caderno de cultura?
Mas lá está. Sem um vírgula fora do lugar.
Agora sem falsa modéstia: quantas pessoas vocês conhecem que estampam um título como esse na capa de um caderno de cultura?
sexta-feira, outubro 14, 2005
The doctor in...
Feriado de 12 de outubro. Depois de um longo período sem descanso no jornal, consigo uma folga. Teria um dia inteiro para fazer simplesmente niente. Liguei para minha mão de amigos e convoquei todos para tomar umas e dar risadas.
Era feriado. Era Dia das Crianças. O Leão Lobo estava vestido de criança na TV.
E eu estava com um ouvido tapado.
Um ouvido tapado.
Eu nunca tinha ficado com um ouvido tapado antes. Nem sabia como era a sensação de ter um ouvido tapado. Mas assim estava desde o dia anterior quando, ao sair do banho, senti o já explicitado orifício entupir e assim ficar durante todo o dia.
Não. Ninguém sabe o que é ficar meio surdo um dia inteiro dentro de uma redação de jornal. Agora eu sei. E vou recomendar para os meios melhores inimigos, podem ter certeza.
Meu pai tem isso direto. O caso dele é quase crônico. Diz o sagitariano que desde a lua de mel com minha mãe ele sofre do mal do ouvido tapado. "É como ficar com uma vareta enfiada no rabo", comparou. Bom, não posso confirmar tal analogia, pois nunca tive uma vareta enfiada no rabo. Mas digo que é como um cisco pérpetuo nos olhos.
E isso me incomodava.
Fui ao médico. Num hospital de convênio. "Vão passar um rotoruter no meu ouvido e sairei limpo daqui", imaginei. Na minha vez, o médio me examina e diz que o ouvido tá entupido de cera. E completa que preciso amolecer a dita cuja para poder voltar a ouvir.
Tóim!
Biduzão. Quase pedi para ele seis dezenas pra jogar na mega sena.
Saio ainda mais mal humorado do hospital. Acordo no feriado e o ouvido ainda está tampado. Vou reclamar com meu pai, homem prático, formado nos canaviais de Rio das Pedras e no Senai de Limeira, afeito a soluções rápidas e efetivas.
"Ó. Eu cansei de ir no otorrino e tomar água quente na orelha. Até sangue sai. Tem um jeito melhor", elucidonou-me papai. Ele continua que, num belo dia, irritado com o não funcionamento de práxi de um dos ouvidos, num lapso de desespero, enfiou a mangueira de testar hidrovácuo no pavilhão auditivo e... puf! Fez o som.
Agora uma breve explicação. Meu pai tem uma autopeça e oficina mecânica. Lá, há uma máquina composta por um motor que, ligado, gera vácuo através de uma mangueira. É utilizada para testar determinados tipos de componentes do sistema de freio automotivo. Tipo um aspirador de pó, só que menos potente. A mangueira, quando conectada e vedada, suga o ar formando uma câmara de vácuo no local desejado.
No caso dele, o ouvido.
Com a pressão exercida pelo vácuo, a camada de cera que tapava ouvido é aberta.
"Demorou. Vamo lá", senteciei, com a determinação dos que não tem nada a perder.
Fui, meti a mangueira no ouvido e liguei o motor. Plóp! Os rouxinóis gorgorejavam. Os grilos cri-cri-crizavam. A vida voltava a ter som.
Contei a peripécia a todos, que indignados ficaram. "Vai foder seu ouvido", foi o que mais ouvi. Mas ouvi.
Era feriado. Era Dia das Crianças. O Leão Lobo estava vestido de criança na TV.
E eu estava com um ouvido tapado.
Um ouvido tapado.
Eu nunca tinha ficado com um ouvido tapado antes. Nem sabia como era a sensação de ter um ouvido tapado. Mas assim estava desde o dia anterior quando, ao sair do banho, senti o já explicitado orifício entupir e assim ficar durante todo o dia.
Não. Ninguém sabe o que é ficar meio surdo um dia inteiro dentro de uma redação de jornal. Agora eu sei. E vou recomendar para os meios melhores inimigos, podem ter certeza.
Meu pai tem isso direto. O caso dele é quase crônico. Diz o sagitariano que desde a lua de mel com minha mãe ele sofre do mal do ouvido tapado. "É como ficar com uma vareta enfiada no rabo", comparou. Bom, não posso confirmar tal analogia, pois nunca tive uma vareta enfiada no rabo. Mas digo que é como um cisco pérpetuo nos olhos.
E isso me incomodava.
Fui ao médico. Num hospital de convênio. "Vão passar um rotoruter no meu ouvido e sairei limpo daqui", imaginei. Na minha vez, o médio me examina e diz que o ouvido tá entupido de cera. E completa que preciso amolecer a dita cuja para poder voltar a ouvir.
Tóim!
Biduzão. Quase pedi para ele seis dezenas pra jogar na mega sena.
Saio ainda mais mal humorado do hospital. Acordo no feriado e o ouvido ainda está tampado. Vou reclamar com meu pai, homem prático, formado nos canaviais de Rio das Pedras e no Senai de Limeira, afeito a soluções rápidas e efetivas.
"Ó. Eu cansei de ir no otorrino e tomar água quente na orelha. Até sangue sai. Tem um jeito melhor", elucidonou-me papai. Ele continua que, num belo dia, irritado com o não funcionamento de práxi de um dos ouvidos, num lapso de desespero, enfiou a mangueira de testar hidrovácuo no pavilhão auditivo e... puf! Fez o som.
Agora uma breve explicação. Meu pai tem uma autopeça e oficina mecânica. Lá, há uma máquina composta por um motor que, ligado, gera vácuo através de uma mangueira. É utilizada para testar determinados tipos de componentes do sistema de freio automotivo. Tipo um aspirador de pó, só que menos potente. A mangueira, quando conectada e vedada, suga o ar formando uma câmara de vácuo no local desejado.
No caso dele, o ouvido.
Com a pressão exercida pelo vácuo, a camada de cera que tapava ouvido é aberta.
"Demorou. Vamo lá", senteciei, com a determinação dos que não tem nada a perder.
Fui, meti a mangueira no ouvido e liguei o motor. Plóp! Os rouxinóis gorgorejavam. Os grilos cri-cri-crizavam. A vida voltava a ter som.
Contei a peripécia a todos, que indignados ficaram. "Vai foder seu ouvido", foi o que mais ouvi. Mas ouvi.
terça-feira, outubro 11, 2005
Uoba! Uoba!
Quando Roger Moreira escreveu a letra de "Terceiro", ele devia estar numa fase muito inspirada. Conheço pouquíssimas pessoas que se não se preocupam em não se destacarem no que fazem. Eu sou uma delas.
Cago e ando para a competição. Talvez por isso sempre tenha me mantido afastado de práticas esportivas. E olha que eu tentei. Por mais de uma vez, até. Mas era sempre a mesma coisa.
Aos 13 anos, entrei numa escolinha de futebol e, depois de uma semana de bate-bola descompromissado, a insanidade começava a ser insuflada pelo treinador. Como um general facista, cupia para correr, marcar, chegar junto, avançar, voltar, marcar de novo, e bater, tentando transformar um bando de pernetas em cãe de guerra sanguinários. Cadê o espírito esportivo? A diversão saudável e descompromissada? A camaradagem? O companheirismo? Tinha ido embora na botinada que havia levado de um garoto do meu próprio time depois que errei um passe. Ele estava crente que seria o novo Raí. Hoje é empacotador de supermercado. O garoto, não o Raí.
Então entrei numa academia de karatê. Eu, que sempre fui um bundão assumido, preferindo a palavra à espada, fiquei horrorizado. Bater e apanhar não era comigo, definitivamente. Mesmo assim, fui até faixa azul. Grande coisa.
Anos mais tarde, aos 15, me matriculei para fazer natação. "Esporte completo", diziam em uníssono. "Abre os pulmões, define os músculos, melhora o condicionamento", replicavam, quase a ponto de salvaguardarem que, apesar de minha pouca idade, a natação me daria ereções perpétuas. Três dias e alguns caldos depois, a academia começa uma semana de competições internas, do tipo "turma da tarde" contra a "turma da manhã". Os professores de ambos os períodos incitavam a rivalidade. "Vamos deixar ele ganharem da gente?", perguntavam, já esperando um desafinado "Não!", seguido de alguns palavrões. Na água, neguinho tinha quase um ataque cardíaco para conseguir chegar na frente. A pá de cal veio quando a instrutora disse que eu precisava melhorar minha braçada, fechar mais a curvatura do braço e treinar melhor minha virada olímpica. Num ato desespero impensado, balbuciei: "sabe, eu não quero competir, não. Só quero nadar". O apito caiu da boca da garota, que soltou um "ah..." e virou-se para nunca mais me dirigir a palavra. Era o fim.
Quase dez anos depois resolvi malhar. Com o término da faculdade, tinha tempo de sobra. "Hora de cuidar do corpo", pensei, no alto dos meus 60kg distribuídos em pouco mais de 1,75 metros. Na academia, me senti no paraíso dos idiotas. O que reforçou minha tese de que aquilo não poderia fazer bem para mim, mas não custava tentar. Afinal, já tinha tentado de tudo, não custava nada. Mas custou e pedi a conta quando, na segunda semana, um sujeitinho chegou com uma fita métrica para medir meu bíceps. "Vamos ver a quantas anda essa muxibinha aí, querido", regurgitou o esteriótipo de tudo aquilo que mais abomino na face da Terra. "Pra quê?", retruquei. "Pra saber se está dando resultado. Aí aumentamos a carga", respondeu, como se ensinasse a Teoria da Relatividade para um chimanzé. Disse que não precisava, que meu lance alí era apenas puxar uns ferros para transpirar um pouco, manter a barriga no lugar e só. Ele, claro, não gostou e, como a professora de natação, não quis mais saber de mim. "Caso perdido", deve ter pensado. Ainda assim continuei por lá mais um mês. Mas ver todos os dias sujeitos se comendo em frente a um espelho, piranhas da idade da minha mãe pagando de gatinhas com os instrutores e, pior, ouvir insuportáveis "Aaaaff!", "Uuuuff!" e "Gaaac!" sempre que alguém erguia ou abaixava quase uma tonelada de ferro fundido foi demais pra minha cabeça cabeluda.
Dei as contas para o esporte, o físico e o escambau.
A barriga de chopp, claro, veio e se instalou. Mas é até simpática e, se preciso for, consigo encolhe-la e disfarçar bem. Claro que isso um monte de gente também faz. Ainda bem. Assim, ninguém me acusa de querer ser o melhor em alguma coisa.
Cago e ando para a competição. Talvez por isso sempre tenha me mantido afastado de práticas esportivas. E olha que eu tentei. Por mais de uma vez, até. Mas era sempre a mesma coisa.
Aos 13 anos, entrei numa escolinha de futebol e, depois de uma semana de bate-bola descompromissado, a insanidade começava a ser insuflada pelo treinador. Como um general facista, cupia para correr, marcar, chegar junto, avançar, voltar, marcar de novo, e bater, tentando transformar um bando de pernetas em cãe de guerra sanguinários. Cadê o espírito esportivo? A diversão saudável e descompromissada? A camaradagem? O companheirismo? Tinha ido embora na botinada que havia levado de um garoto do meu próprio time depois que errei um passe. Ele estava crente que seria o novo Raí. Hoje é empacotador de supermercado. O garoto, não o Raí.
Então entrei numa academia de karatê. Eu, que sempre fui um bundão assumido, preferindo a palavra à espada, fiquei horrorizado. Bater e apanhar não era comigo, definitivamente. Mesmo assim, fui até faixa azul. Grande coisa.
Anos mais tarde, aos 15, me matriculei para fazer natação. "Esporte completo", diziam em uníssono. "Abre os pulmões, define os músculos, melhora o condicionamento", replicavam, quase a ponto de salvaguardarem que, apesar de minha pouca idade, a natação me daria ereções perpétuas. Três dias e alguns caldos depois, a academia começa uma semana de competições internas, do tipo "turma da tarde" contra a "turma da manhã". Os professores de ambos os períodos incitavam a rivalidade. "Vamos deixar ele ganharem da gente?", perguntavam, já esperando um desafinado "Não!", seguido de alguns palavrões. Na água, neguinho tinha quase um ataque cardíaco para conseguir chegar na frente. A pá de cal veio quando a instrutora disse que eu precisava melhorar minha braçada, fechar mais a curvatura do braço e treinar melhor minha virada olímpica. Num ato desespero impensado, balbuciei: "sabe, eu não quero competir, não. Só quero nadar". O apito caiu da boca da garota, que soltou um "ah..." e virou-se para nunca mais me dirigir a palavra. Era o fim.
Quase dez anos depois resolvi malhar. Com o término da faculdade, tinha tempo de sobra. "Hora de cuidar do corpo", pensei, no alto dos meus 60kg distribuídos em pouco mais de 1,75 metros. Na academia, me senti no paraíso dos idiotas. O que reforçou minha tese de que aquilo não poderia fazer bem para mim, mas não custava tentar. Afinal, já tinha tentado de tudo, não custava nada. Mas custou e pedi a conta quando, na segunda semana, um sujeitinho chegou com uma fita métrica para medir meu bíceps. "Vamos ver a quantas anda essa muxibinha aí, querido", regurgitou o esteriótipo de tudo aquilo que mais abomino na face da Terra. "Pra quê?", retruquei. "Pra saber se está dando resultado. Aí aumentamos a carga", respondeu, como se ensinasse a Teoria da Relatividade para um chimanzé. Disse que não precisava, que meu lance alí era apenas puxar uns ferros para transpirar um pouco, manter a barriga no lugar e só. Ele, claro, não gostou e, como a professora de natação, não quis mais saber de mim. "Caso perdido", deve ter pensado. Ainda assim continuei por lá mais um mês. Mas ver todos os dias sujeitos se comendo em frente a um espelho, piranhas da idade da minha mãe pagando de gatinhas com os instrutores e, pior, ouvir insuportáveis "Aaaaff!", "Uuuuff!" e "Gaaac!" sempre que alguém erguia ou abaixava quase uma tonelada de ferro fundido foi demais pra minha cabeça cabeluda.
Dei as contas para o esporte, o físico e o escambau.
A barriga de chopp, claro, veio e se instalou. Mas é até simpática e, se preciso for, consigo encolhe-la e disfarçar bem. Claro que isso um monte de gente também faz. Ainda bem. Assim, ninguém me acusa de querer ser o melhor em alguma coisa.
Ói, que legal...
... essa animação do blog da Luz de Luma aí do lado? Consegui através da Simy. É tudo o que eu queria fazer se entendesse um pouco de animação. Ou se tivesse algum talento, quem sabe...
sábado, outubro 08, 2005
Planta
Acontece de repente. É algo meio inesperado, tipo a primeira menstruação ou a primeira vez que você ejacula: sabe que mais dia menos dia iria acontecer, mas, quando acontece, putz, assusta pacas.
Amadurecer é mais ou menos assim.
E acredito que o amadurecimento - de caráter, principalmente - está intrinsecamente ligado a carga de responsabilidade que se carrega. Quanto mais se é responsável, mais maduro se torna. E quanto mais maduro se torna, menos tolerância passa a sustentar.
O reflexo disso é sentido principalmente nos relacionamentos pessoais. O número de amigos diminui. Gente que era vista como tótem hoje não passa de graveto. E não há crueldade ou ingratidão nisso. Apenas falta de tolerância e aumento de auto-confiança, que resultam num afunilamento do crivo para este fim.
Isso parece inevitável.
Coisas que antes eram objetivo de largas conjecturas e noites sem dormir, agora são resolvidas num tapa. Pequenas bobagens são identificadas rapidamente e despachadas da mesma forma. Tornar-se responsável por algo maior que o próprio umbigo é desenvolver uma visão de prioridades. A própria noção de tempo passa a ser outra, porque ele se torna cada vez mais escasso. Logo, perde-lo em ações, situações ou pessoas que merecem no máximo um aceno de cabeça não pode ser tolerado.
Porém, a falta de tolerância não significa falta de paciência, brutalidade ou ignorância. A paciência, pelo contrário, é uma virtude que deve ser reforçada e trabalhada de maneira benéfica.
A tolêrância corrói a capacidade de amar de verdade. Tolerar não é amar, é penalizar o próximo. É mantê-lo em sua imaturidade, privando-o de um mundo que só se descortina quando se sente os prazeres e desgostos da responsabilidade plena.
Maduro, não se tolera.
Se ama ou se odeia.
Para-se de viver de migalhas e parte em de um belo pedaço com recheio e cobertura.
Ergue-se a cabeça para apanhar na cara, e não na nuca.
Chora-se uma partida, mas não uma perda.
Amadurecer é mais ou menos assim.
E acredito que o amadurecimento - de caráter, principalmente - está intrinsecamente ligado a carga de responsabilidade que se carrega. Quanto mais se é responsável, mais maduro se torna. E quanto mais maduro se torna, menos tolerância passa a sustentar.
O reflexo disso é sentido principalmente nos relacionamentos pessoais. O número de amigos diminui. Gente que era vista como tótem hoje não passa de graveto. E não há crueldade ou ingratidão nisso. Apenas falta de tolerância e aumento de auto-confiança, que resultam num afunilamento do crivo para este fim.
Isso parece inevitável.
Coisas que antes eram objetivo de largas conjecturas e noites sem dormir, agora são resolvidas num tapa. Pequenas bobagens são identificadas rapidamente e despachadas da mesma forma. Tornar-se responsável por algo maior que o próprio umbigo é desenvolver uma visão de prioridades. A própria noção de tempo passa a ser outra, porque ele se torna cada vez mais escasso. Logo, perde-lo em ações, situações ou pessoas que merecem no máximo um aceno de cabeça não pode ser tolerado.
Porém, a falta de tolerância não significa falta de paciência, brutalidade ou ignorância. A paciência, pelo contrário, é uma virtude que deve ser reforçada e trabalhada de maneira benéfica.
A tolêrância corrói a capacidade de amar de verdade. Tolerar não é amar, é penalizar o próximo. É mantê-lo em sua imaturidade, privando-o de um mundo que só se descortina quando se sente os prazeres e desgostos da responsabilidade plena.
Maduro, não se tolera.
Se ama ou se odeia.
Para-se de viver de migalhas e parte em de um belo pedaço com recheio e cobertura.
Ergue-se a cabeça para apanhar na cara, e não na nuca.
Chora-se uma partida, mas não uma perda.
quinta-feira, outubro 06, 2005
segunda-feira, outubro 03, 2005
sábado, outubro 01, 2005
O baixista não come ninguém
- Beleza. O repertório vai ser hard rock anos 60 e 70, certo?
- Pode crer. Acrescenta um pouco de psicodelia com um pandeiro em forma de meia lua. Eu assumo os vocais, já que meus cabelos parecem com os do Mick Jagger na época da majestade satânica.
- Certo, então eu toco guitarra. Consegui solar ontem Stairway to Heaven do começo ao fim.
- Praticamente um Jimmy Page cover...
- Quem assume as baquetas?
- Eu, que sou o mais gordo. Baterista que se preza é gordo. Ou pelo menos o mais gordo do grupo. Se bem que gordo é uma palavra um tanto pejorativa. Na verdade, o baterista é o mais forte, o mais braçudo da banda. Então sou eu mesmo.
- Tu já tem bateria?
- Não, mas consigo uma.
- Peraí. Só sobrou o baixo? Ah, não, nem fudendo. Não vou ser o baixista.
- Porque? É o instrumento mais fácil de tocar, nem precisa de muito tutano. É só ficar num canto, com pose de introspectivo, tipo o John Paul Jones, mexendo nas cordas. Ainda se fossemos uma banda de metal progressivo...
- Não, pô! O baixista não come ninguém, vocês sabem disso! É o mais otário, o que sempre fica com as piores groupies. Não, nem vem, não quero ser o baixista.
- Ah, qual é! Pra sua informação, um dos maiores comedores do rock é o Gene Simmons, baixista do Kiss. Ele até lançou um livro contando os casos dele e tal.
- Putz, nada a ver. O cara é o maior nada a ver, o maior cascateiro. Com aquela cara nem a minha prima de Nhandeara dava pra ele.
- Tem o Paul também. O que seria dos Beatles sem o olhar de bagre morto do Paul? E ele era baixista.
- E quem se importa com o Paul? Ele só conseguiu ser menos insignificante que o Ringo. Mas aí também já é chutar cachorro morto. Fora que ele casou com a primeira namoradinha dele ou algo assim. Não, nem a pau, não quero ficar com o baixo.
- Ah, cara, qual é, faz um esforço. Ó, tem o Flea, que é baixista dos Chilli Peppers! O cara é totalmente pirado e a mulherada adora ele!
- Claro, depois do Anthony Kiedis e do Frusciante! Meu, já falei que não quero o baixo.
- Então fica com o pandeiro em forma de meia lua.
- Não, pra isso a gente precisa colocar uma riponga gostosa. Uma não, várias, tipo as GTOs do Zappa. Cada uma com um pandeiro em forma de meia lua, chocalho, uns lances assim.
- É, só sobrou o baixo mesmo. Vamos lá, cara, para de pensar um pouco em mulher e se concentra na música. É por isso que estamos montando uma banda. Pela música. Só ela importa. Ela e seu enorme poder de mudar as mentes de milhares de...
- Putz, cala a boca, cara. Quem tá interessado em música aqui? O lance é fazer um som pra mulherada cair em cima e a gente se dar bem. Corta esse papo de colunista bicha de caderno de cultura...
- Aí, lembrei de outro baixista que, além de tocar, é o vocalista, letrista, e dono da banda! O Humberto Gessinger!
- Nossa, conseguiu piorar tudo. Nem na próxima encarnação vou conseguir fazer umas letras como a dele. Nem uma música tão ruim.
- Tem o Sid Vicious, cara! Quer sujeito mais atitude que ele? E era o baixista!
- É, cheio de atitude e burrice. Enfiou o pé na jaca e morreu. Grande coisa.
- Quem é o baixista do Dream Theater?
- Por esse nem eu me interesso. Não somos uma banda de progressivo, cara, esquece isso. Não vou querer solos de quarenta minutos.
- Então, tão vendo? O baixista é o sujeito mais insignificante da banda! Os Stones nem tinham um baixista fixo. De tão inútil, os White Stripes tiraram e ninguém sentiu falta. O Krist Novoselic não emplacou nada depois que saiu do Nirvana. E os Mutantes acabaram logo que o Liminha entrou para tocar baixo. Então podem parar de tentar me convencer.
- Beleza, então tu tá fora. Pronto, era o que queria?
- Ah, nada mais clássico. Quando aperta uma crise, sacam logo fora o baixista. Não podia esperar nada diferente de vocês. Passem bem.
- Pô, cara, não fomos muito duros com ele? Era só o baixista, não fazia mal algum.
- Conhece aquela história, né? Todo baixista é um guitarrista frustrado.
- E não come ninguém.
- E quem vai dar o grave pra música?
- Coloca um teclado no fundo. Ninguém vai perceber. Tu manja tocar teclado?
- Não. E mesmo se soubesse, não iria tocar. Se o baixista não come ninguém, o que dirá do tecladista. É só olhar o Roupa Nova, que tem dois tecladistas...
- Putz, nem me fale.
- Deixa sem baixo então.
- Por mim tudo bem.
- Não que vá sobrar mais mulher por isso...
- Pode crer. Acrescenta um pouco de psicodelia com um pandeiro em forma de meia lua. Eu assumo os vocais, já que meus cabelos parecem com os do Mick Jagger na época da majestade satânica.
- Certo, então eu toco guitarra. Consegui solar ontem Stairway to Heaven do começo ao fim.
- Praticamente um Jimmy Page cover...
- Quem assume as baquetas?
- Eu, que sou o mais gordo. Baterista que se preza é gordo. Ou pelo menos o mais gordo do grupo. Se bem que gordo é uma palavra um tanto pejorativa. Na verdade, o baterista é o mais forte, o mais braçudo da banda. Então sou eu mesmo.
- Tu já tem bateria?
- Não, mas consigo uma.
- Peraí. Só sobrou o baixo? Ah, não, nem fudendo. Não vou ser o baixista.
- Porque? É o instrumento mais fácil de tocar, nem precisa de muito tutano. É só ficar num canto, com pose de introspectivo, tipo o John Paul Jones, mexendo nas cordas. Ainda se fossemos uma banda de metal progressivo...
- Não, pô! O baixista não come ninguém, vocês sabem disso! É o mais otário, o que sempre fica com as piores groupies. Não, nem vem, não quero ser o baixista.
- Ah, qual é! Pra sua informação, um dos maiores comedores do rock é o Gene Simmons, baixista do Kiss. Ele até lançou um livro contando os casos dele e tal.
- Putz, nada a ver. O cara é o maior nada a ver, o maior cascateiro. Com aquela cara nem a minha prima de Nhandeara dava pra ele.
- Tem o Paul também. O que seria dos Beatles sem o olhar de bagre morto do Paul? E ele era baixista.
- E quem se importa com o Paul? Ele só conseguiu ser menos insignificante que o Ringo. Mas aí também já é chutar cachorro morto. Fora que ele casou com a primeira namoradinha dele ou algo assim. Não, nem a pau, não quero ficar com o baixo.
- Ah, cara, qual é, faz um esforço. Ó, tem o Flea, que é baixista dos Chilli Peppers! O cara é totalmente pirado e a mulherada adora ele!
- Claro, depois do Anthony Kiedis e do Frusciante! Meu, já falei que não quero o baixo.
- Então fica com o pandeiro em forma de meia lua.
- Não, pra isso a gente precisa colocar uma riponga gostosa. Uma não, várias, tipo as GTOs do Zappa. Cada uma com um pandeiro em forma de meia lua, chocalho, uns lances assim.
- É, só sobrou o baixo mesmo. Vamos lá, cara, para de pensar um pouco em mulher e se concentra na música. É por isso que estamos montando uma banda. Pela música. Só ela importa. Ela e seu enorme poder de mudar as mentes de milhares de...
- Putz, cala a boca, cara. Quem tá interessado em música aqui? O lance é fazer um som pra mulherada cair em cima e a gente se dar bem. Corta esse papo de colunista bicha de caderno de cultura...
- Aí, lembrei de outro baixista que, além de tocar, é o vocalista, letrista, e dono da banda! O Humberto Gessinger!
- Nossa, conseguiu piorar tudo. Nem na próxima encarnação vou conseguir fazer umas letras como a dele. Nem uma música tão ruim.
- Tem o Sid Vicious, cara! Quer sujeito mais atitude que ele? E era o baixista!
- É, cheio de atitude e burrice. Enfiou o pé na jaca e morreu. Grande coisa.
- Quem é o baixista do Dream Theater?
- Por esse nem eu me interesso. Não somos uma banda de progressivo, cara, esquece isso. Não vou querer solos de quarenta minutos.
- Então, tão vendo? O baixista é o sujeito mais insignificante da banda! Os Stones nem tinham um baixista fixo. De tão inútil, os White Stripes tiraram e ninguém sentiu falta. O Krist Novoselic não emplacou nada depois que saiu do Nirvana. E os Mutantes acabaram logo que o Liminha entrou para tocar baixo. Então podem parar de tentar me convencer.
- Beleza, então tu tá fora. Pronto, era o que queria?
- Ah, nada mais clássico. Quando aperta uma crise, sacam logo fora o baixista. Não podia esperar nada diferente de vocês. Passem bem.
- Pô, cara, não fomos muito duros com ele? Era só o baixista, não fazia mal algum.
- Conhece aquela história, né? Todo baixista é um guitarrista frustrado.
- E não come ninguém.
- E quem vai dar o grave pra música?
- Coloca um teclado no fundo. Ninguém vai perceber. Tu manja tocar teclado?
- Não. E mesmo se soubesse, não iria tocar. Se o baixista não come ninguém, o que dirá do tecladista. É só olhar o Roupa Nova, que tem dois tecladistas...
- Putz, nem me fale.
- Deixa sem baixo então.
- Por mim tudo bem.
- Não que vá sobrar mais mulher por isso...
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